sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Caldeiradas - Teoria e show de Tv . As diferenças dum Pessoa.


A caldeirada do chefe Sá-Pessoa

Conheço o chefe Sá Pessoa desde criança, por amizade com a família que integra outros parâmetros que aqui não vêm para o caso. Ou vêm. É que a família de Sá Pessoa é uma família peculiar de artistas e de gente de bem que muito admiro. Músicos, bailarinos, fotógrafos de arte, nada falta no leque da sensibilidade e busca da perfeição na história dos Sá-Pessoa. E com um conhecido chefe da nova vaga de grande mérito, para compor a enorme abrangência das artes na familia.

Por isso mesmo segui com muita atenção – e sigo sempre que salto em zapping e deparo no ar com o programa – a confecção do chefe Sá-Pessoa, com quem tenho aprendido alguns truques e receitas mas desta vez discordo a propósito de uma caldeirada.

Supostamente à portuguesa. Eventualmente à francesa. Não sei.
Ou nem uma coisa nem outra pois o conceito de bouille à baise é um conceito totalmente diferente do que vi. Os ingredientes estão todos no tacho, dispostos de forma mais ou menos semelhante às camadas que foram ensinadas pelo jovem chef. E é nessa agradável marinada que os sabores do peixe, do pimentão, da cebola, do vinho branco, do tomate etc, se estão já a começar a fundir. Ao decidir aceitar a encomenda ou encetar a confecção leva-se então ao lume tudo junto. E ferve baixinho como indica o nome bouilleabaise, - base de uma receita mediterrânica geral em que devemos integrar a nossa caldeirada - demorando, pelo menos, 40 minutos. Isto é, dez/quinze minutos até ferver, e depois mais trinta, muito baixinho, no mínimo, até apurar e fundir sabores devidamente.

Aquela jogada de separar a confecção e usar o caldo apurado à parte como distribuidor principal do gosto da caldeirada, não me convenceu. A caldeirada é isso mesmo – uma caldeirada. Uma festa.
A coisa começa no ”cabaz” a que todo o pescador da traineira tem direito, onde ele leva para casa o peixe que na lota não encasalou em nenhum lote maior.

Eu explico.

O navio de pesca trouxe à lota uma caixa de tamboril, outra de peixe-espada, outra de pargo, etc. Sobraram para ali um rascaço, um cantaril (de seu nome completo, mais verdadeiramente, alcantarilho), duas lulas, um cação, um safio, uma raia; enfim peixe desirmanado que não se constituiu como lote vendável. O pescador pode então combinar com o Mestre e levar essas sobras para casa. E é precisamente desse conceito de “aproveitamento” que surge a caldeirada à portuguesa genuína. A chamada caldeirada à fragateira. Rica e variada e onde jamais, em tempo algum, se poriam salmonetes, peixe nascido para grelhar.

Além disto põe-se aqui uma questão de fígados – o do salmonete e o do fígado de tamboril.

Ver cortar o salmonete em filetes é uma ideia peregrina, talvez proveniente da Austrália onde o Chefe Pessoa estagiou, mas sinceramente muito estranha para o aproveitamento português do saporíssimo peixe. Nascido para grelhar, como disse, o fígado e a escama (talvez o único peixe em que a escama pertence ir ao prato, sabiam?...) fazem parte do sabor do salmonete.

O outro fígado é o que não vi na caldeirada do Chef Pessoa. O de tamboril, ex-líbris da caldeirada à fragateira. O qual, em pequenas porções, deve perlar de sabor o colectivo. Tal como o pimento, que não senti, ou por falha minha, ou porque não tinha de facto grande intervenção na versão apresentada, nem as doses maciças de cebola que devem embrulhar a caldeirada no seu conjunto. O louro português, o alho, o azeite português, a flor de sal, (de preferência a caldeirada deve cozinhar-se em parte com água do mar…), um pouco de piri piri a gosto, a salsa ou o coentro picado bem no fim por cima …o pão frito a acompanhar… Mas sobretudo o ferver baixinho por longo tempo, que não foi a estratégia de confecção do Chefe Pessoa.

A teoria do stock é de origem anglo-americana. Ao armazenar um pouco de restos de carne ou peixe , com facilidade se compõe um caldo de tempero que se substitui, pela intensidade de sabor, ao lento apurar da cozinha portuguesa na panela ora de barro, ora de ferro.

Daí o sabor das nossas sopas lentas e da nossa comida de tacho…

Há que dizer isto em defesa do nosso próprio património e do orgulho com que essa slow food nos foi trazida ate hoje pelos nossos avós. A caldeirada à portuguesa é um património nacional. Não dá para mistificar, desconstruir, aldrabar, nem reduzir no leque de peixes.

Caldeirada à portuguesa tem de ter raia, amêijoa, cação, safio, (de preferência de posta aberta, pois a posta fechada, como se sabe, tem demasiada espinha), tamboril. E depois é todo um mundo - e pode ter até sardinha, lula, ruivo, bodião, redfish, pargo mulato, pamplo, pataroxa, umas tiras de choco, umas postas de robalo e dourada, se houver; enfim, o resto de aproveitamentos. História já sabida da nossa riqueza de pobres e criativos. Mas dando margem de gosto muito variada a quem quiser e, assim, podendo sempre por de parte o que se gostar menos.

Mas nunca nenhuma vi que aponte para o salmonete, muito menos em assépticos filetes.

Curiosamente, a caldeirada tem leituras várias e confecções específicas das zonas onde se confecciona, e na Moita por exemplo, terá mesmo de incluir peixes do Tejo – dos quais a enguia e o choco são obrigatórios – e não leva água. Tudo é cozido nos próprios sucos dos peixes e legumes, que devem ser, tanto quanto possível, da época. Neste caso a enguia como coze mais depressa deve ser acrescentada a meio da fervura enquanto o choco deve estar desde o início - e bem fundo no tacho - para cozer bem.

Além disso, o gosto final da caldeirada típica à portuguesa é fruto do tempo de espera e maceração no tacho. Está já escolhida e pronta com o peixe esperando e deitando gosto ao conjunto. Depois é cobrir com os mínimos de água e, mais para o fim, vinho branco, para quem quiser apurar com esse perfume (há quem ponha cerveja…). Ou até scotch, o que, obviamente, é uma enormidade digna de prisão.

Mas como dizia, o gosto final é fruto desse tempo de conjugação de sabores. Por isso ela deve estar já preparada no tacho e ir no tacho ao lume… e à mesa! O gosto vem portanto da redução natural com engrossamento do caldo, feita pelo tempo de fervura, nunca por sínteses adicionadas de stock de peixe intensivo. Ou pior ainda - como já vi - adicionar caldos knorr/maggi ou molhos enlatados.

Sabores portugueses têm de ser abordados com muito cuidado e saber, por favor, caro amigo e querido amigo e chefe Sá-Pessoa. Consulte a história culinária deste antigo país de mil anos de sabores. Senão… arrisca-se a andar ao lado do que devia ser.

E por mim pode lavar a louça toda amanhã que eu não me importo!

Um grande e familiar abraço.

Pedro Barroso

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Café Correia - Vila do Bispo



Não esta foto, podem crer, não tem nada que ver com o Correia.
É apenas apenas uma foto de um exercicio pessoal no Natal de 2007.
Razão?
Recuso-me publicar aqui - além da ode abaixo - o que quer que seja sobre tal local....



Ode ao Correia

Há sítios onde um viajante
Por mais fama do lugar
Por mais faminto que esteja
Nunca deve penetrar
Nem sequer vir a tentar
Trincar o que quer que seja

O Correia é um daqueles
Que tem aura de famoso
facto que eu, sinceramente,
acho muito duvidoso!
por isso dou-lhe um conselho:
Evite o maldito tacho,
Palavrinha de Barroso!

Você entra e ninguém
Parece vê-lo ou notá-lo
No primeiro quarto de hora.
Como se fosse invisível.
Nem menu, nem simpatia.
Impressionante demora!

Queria esplanada? … Não há!
Sentar-se ao pé da janela?
Nem mesa pode escolher!
Vá para o raio que o parta!
Ou talvez para o Castelejo…
Ali é como ele disser!

Depois de muito implorar
e ser bastante humilhado,
o Correia lá lhe traz
o menu tão desejado...
E peça, mas vai ouvir:
- Mas isso que você quer
tem que ser confeccionado…


Quer ele dizer com isto
que escusa de estar com pressa.
- Só vai ao lume na altura!...
Tem o apuro… a fervura…!

(que é como quem diz: uma hora
até chegar a travessa!)

E o pobre do cliente
já verde, desesperado,
aguado, cego de fome
espera o tempo que ele quiser
e come do que ele mandar.
(Para cúmulo, desculpem:
o coelho vinha insonso
e as batatas a nadar!...)

Como pode tanta fama
dar em tão pouco proveito?
Assim se faz um bom nome
que na pratica vivida
não faz jus, nem tem preceito!
Tanta imprensa, tão falado…
e afinal tão sem jeito!

Na velha Vila do Bispo
Procure o Álvaro, ou outro;
Vá ao Solar do Percebe,
ao Careca, ao Mexilhão!...
ao professor, Papo Cheio,
até à Eira de Mel...

Todos são melhor partido
que o Correia convencido
antipático e vulgar
mal disposto, grosseirão!

Chiça! … Que nunca mais,
Nunca mais hei-de voltar!

Isso vos digo – ali, NÃO!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

O Galito

Rua da Fonte 18 D
Carnide
Lisboa



Descobrir um novo espaço de restauração onde não nos enganam na qualidade é sempre agradável.
Infelizmente a restauração - que passa ela própria por problemas com o custo dos transportes, o custo acrescido das matérias base e a perda de poder de compra motivada pela crise geral que se vive…- tem tendência, por vezes, para resolver as questões de forma errada.
Ou minguando as doses e tornando o serviço famélico; ou diminuindo o número de funcionários de atendimento e tornando o serviço lento e trapalhão; ou pondo preços exorbitantes e tornando a procura difícil; ou comprando matérias-primas de qualidade inferior e baixando o nível culinário. Enfim, em nenhum destes casos se pode falar de inteligência, compensação e equilíbrio. E provavelmente são casos em que o desespero, a breve prazo, dará lugar à falência ou à retirada.
Há um compromisso de qualidade e seriedade que, por vezes, demora tempo a ser percebido pelo comerciante de hotelaria, mas que passa pelo acto axiomático de nunca enganar o cliente. Isto é, todas as manobras contabilísticas são possíveis, os actos de compra de onde e como forem, a inventiva e a criatividade aproveitadora mais ou menos apurada, mas o que surge no prato tem de estar bem.
É o que se passa no Galito, perto da Igreja da Luz. O convívio é são e franco, talvez até um pouco barulhento, mas sempre num nível de ambiente bem alegre e de nível civilizado. Há uma atmosfera de “bistro”, num espaço aconchegado, convivencial. A decoração é simpática, a carta apelativa, com boa escolha de vinhos, sobretudo alentejanos (provámos um Crescendo, que era o vinho da semana, que não conhecíamos e não esteve mal) e a confecção de muito boa nota.
A especialidade da casa é a cozinha alentejana com os pezinhos, as açordas, a miga, o arroz de coentros (divinal), o galo e o cação frito, a sopa de beldroegas com queijo, o gaspacho, uma curiosa sopa de favas com pastéis de bacalhau e, por fim, as sobremesas conventuais, onde não falta o pão de rala e outras gulodices adequadas e rebentativas.
Amesendação com toalhas e guardanapos de pano, empregados de jaleca negra, serviço de cozinha talvez demasiado lento, serviço de sala atento, mas já se sabe, uma sala cheia nunca permite infelizmente aquela simpatia suplementar que desejamos sempre receber e que faz a diferença. Provamos em conjunto além das agradáveis entradas o galo frito e a miga que estavam bem confeccionados e o arroz de coentros que estava excepcional. Esperamos demasiado devido ao afluxo de uma sala completamente lotada. As porções são regulares. Uma nota - os pratos mereciam vir aquecidos.
O Galito é um local in e, mesmo à noite, a marcação de mesa impõe-se. Nem sempre, como já aqui tantas vezes referi, isso significa o que quer que seja, pois estar na moda pode não significar merecimento, mas neste caso a comida tem boa qualidade, o local, apesar de um pouco acanhado, é mesmo simpático e a potencialidade de convívio uma agradável evidência.
Preço um pouco acima da média, mas sobretudo variável conforme a escolha de vinhos.

Resumo

Sala/Mobiliário ****; Porções***; Tempo de espera*; Confecção ****; Serviço ***; WC *** Estacionamento **; Paisagem/Ambiente ***; Grau de satisfação geral ****
Preço $$$$

quinta-feira, 19 de junho de 2008

SIMPS - Restaurante

Parque Manuel P Coentro
Porto Salvo














Dito assim até parece nome de código. Salvo erro quererá dizer Sociedade de Instrução Musical de Porto Salvo, mas não ponho as mãos no lume pela fidelidade com que interpreto a sigla. Quero lá saber. Porque se um dia destes se perderem pela velha zona de Porto Salvo, experimentem este local de excelência na comida verdadeiramente portuguesa. Isso sim, é importante.
Escondido atrás do coreto no Parque Manuel Coentro - nome premonitório de que algo de culinário ali haveria de acontecer...- vive pacatamente, quase oculta, uma das capelinhas de que tanto gosto de comida portuguesa genuina. Com criatividade, honestidade e imaginação. Grelhados de carne e peixe sempre, mas confecção de tacho com um gosto vernáculo e tradicional de grande e sabedora autenticidade.
Em tempos de outra curtimenta pessoal, uma vez, alguém me disse que a comida tinha de ser feita com amor. E muitas vezes,- oh, quantas vezes!... - a cozinha dá-nos precisamente essa dimensão. Pois é. Tudo está certo, tudo está perfeito, mas nota-se a ausência de gosto, o perfume indisfarçável dos sabores; isto é, o amor e a paixão com que o acto culinário foi praticado não está reflectido na confecção. Porque não existiu. E o certo fica incerto; o perfeito afinal, vira imperfeito.
Não é o caso aqui. Há um gosto visível em cozinhar que se estende ao prazer de ver o cliente satisfeito.
Estávamos com o tempo limitado. Os pratos do dia eram bochechas de porco preto com legumes e pés de leitão de coentrada, que provámos; e ainda costeletas de sardinha, que já tinham esgotado do almoço.
As costeletas de sardinha são um prato quase desconhecido de culinária portuguesa que revelam, só por si, um saber e um trabalho de preparação só possível com dedicação. A tendência é para as fritar, fazer em escabeche, incluir na caldeirada, ou simplesmente grelhar. Mas quem experimentar, percebe porque vale a pena. Atenção que o pitéu tem vários nomes conforme o restaurante, o chef e a região, sendo também conhecido como sardinhas albardadas, filetes fritos de sardinha, etc. por aí fora.
Ambas as provas estavam a satisfazer, mas permito-me salientar os pèzinhos com batata cozida nova e um molho de bradar aos céus no apuro, na seda caldosa, no vinagre, nas ervas, enfim, em tudo o que distingue a tal comida feita com saber e com amor.
Sobremesas de sericaia e requeijão com doce de abóbora caseiro, ambas bem fornecidas e ajustadas.
Ao que parece há às sextas feiras uma sopa rica de peixe que é de experimentar como prato/refeição mais que suficiente. Hei-de provar.
Amplo estacionamento, serviço agradável.
Perdoa-se o sítio meio desajustado para funcionar como restaurante, debaixo da colectividade que lhe dá o nome e o barulho de pulos que, por vezes, vem do primeiro andar, onde se tenta talvez repor com corridas e ginástica a elegância que se perde no rés do chão...
Transição entre a tasca portuguesa e o restaurante de sabor regional não classificado, o palco é montado em toalhas e guardanapos de papel e as alfaias, iluminação, a sala e o ambiente não têm luxos. Gente simples, sem mesuras, com afabilidade natural. O luxo está na comida.
Mas por favor não digam a muita gente.
Estes sítios têm de manter-se assim mesmo.
Com amor pelo que se faz e pelo que se serve.

Resumo

Sala/Mobiliário **; Porções****; Tempo de espera****; Confecção ****; Serviço ***; WC ** Estacionamento -*****; Paisagem/Ambiente **; Grau de satisfação geral ****
Preço $$

domingo, 1 de junho de 2008

Restaurante Sº António



Beco de S. Miguel, nº 7
Lisboa

A velha e saborosa Alfama nunca deixou de ser um emblema único na Lisboa antiga. Um espaço histórico de enorme beleza. As suas ruas, vielas e becos são um traço eterno de uma certa e típica kashbah alfacinha. Nos santos populares a coisa refina, enchendo-se de luz e de cor. Mas basta ver este velho povo simples, que ainda estende a sua roupa na janela ou na porta, e chama o vizinho do lado se precisar de ajuda, e vem para rua cantar o fado em esplanadas improvisadas para sentir que este bairro será eternamente uma alma maior de Lisboa. Respira-se um cheiro marítimo e navegante, como se os navios não parassem de aportar e zarpar e o petisco pairasse no ar, em tasquinhas de vinho a copo, fado vadio e fama perdida.
Há contudo, hoje, uma outra Alfama, nobre e tipica, aproveitada dos imóveis restaurados que começam a surgir aqui e ali, por sua vez fruto de uma renovada visão empresarial, tanto no investimento imobiliário, como numa nova restauração de qualidade.
Nesse quadro, terá sido o que pensaram duas figuras conhecidas da Tv, ambos actores, avançando para um Restaurante de bom nivel no Beco de S. Miguel. Nada menos que um prédio completo, de três pisos, com uma sala por piso e ainda esplanada na entrada, à sombra de uma latada exuberante .
O acolhimento é simpático, feito por pessoal jovem e esforçado, que nos põe uma toalha de papel reciclado na mesa e um aperitivo de casca de batata nova frita com maionese, preparo que está a revelar-se habitual e é, sem dúvida, um achado recente, mas de efeito certo. As azeitonas preparadas e azeitadas com ervas estavam bem e, ao que parece, ajudam a manter os comensais entretidos durante a longa espera. Mas ali não se deve ir com pressas, o local merece disfrute e a culinária também.
Foram pedidas três entradas - salada de endívias, morcela com doce de maçã e pedaços de brie frito com compota. Todas cumpriram, com destaque para a morcela e o brie, que estiveram muito bem. De lamentar que não viessem todas ao mesmo tempo, denotando um desfasamento de serviço. A acompanhar optámos por um tinto de Pias que evoluiu muito quando foi solicitado o jarro de decantação que não viera ab initio.
Na sequência foram encomendados três pratos - Coxa de pato no forno, Bife com molho de mostarda e Magret de pato. Todos os pratos demoraram uma eternidade a chegar mas, sendo noite de sexta feira, ninguém esteve para se incomodar muito com isso. O projecto de noite pode ser precisamente ficar por ali. O ambiente é entre o jovem e o "intelectual/branché", sempre seleccionado; além dos turistas normais, trazidos por indicação casual ou eventual referência em roteiros.
As salas, com efeito, são bem decoradas, com base num espantoso espólio de centenas de fotos de gente ligada as artes, em especial ao cinema. Como se diz em neo calão pós-moderno - está-se bem, apesar dos bancos sem costas em algumas mesas. O sitio é in, fashion e contudo, ao contrário doutros que também estão na moda, por vezes injustificadamente, o espaço é de facto agradável e muito simpático.
O bife esteve tenro, com molho equilibrado, como pertence. As coxas eram imensas e bem apaladadas, embora um pouco rijas. O magret estava muito bom, e embora o chef tivesse optado por um ponto relativamente passado, de optima confecção.
Deram-nos dois molhos possiveis para acompanhamento, um com uma base em sumo de laranja e o outro com o que me pareceu uma redução de molho de soja, caldo do proprio palmípede e talvez Porto. O acompanhamento pouco variou em ambos - couve flor, bróculos, batata estufada na prata com maionese, três pedaços de feijão verde, três pedaços de cenoura e uma fatia de gourgette. Equilibrado.
À sobremesa foi provado um cheese cake que estava bem confeccionado.
Estacionamento impossivel e, já agora, aviso à navegação - é preciso subir um bom pedaço pois trata-se de zona pedonal absoluta, sem passagem de carros.
Na noite lisboeta, é uma surpresa de boa imagem e razoável compromisso qualidade/preço, embora não deva esperar favores na conta final, sobretudo se entrar em vinhos velhos,claro. Aí, passa a caro num instante.
Agora, uma observação muito minha. Eu, pessoalmente, fico chocado ao ver - num local tão vernáculo, tão típico e tão português - um menu carregado de pastas, fetuccinis, carpaccios, magrets e outras especialidades estrangeiras. Os proprietários lá saberão. Mas choca-me. Paciência. Tinha de dizer.
À parte isso, vejo os únicos contras na excessiva lentidão no serviço do chef (equatoriano, imagine-se!...) talvez por ser sexta-feira, mas, sobretudo, coisa que não perdoo, nota negativa demais para dois vasos monumentais em plástico translúcido e iluminado, postos à porta por mão alucinada, kitsh ou simplesmente maldosa. Tirem aquilo dali, urgentemente, em nome do bom gosto que impera pela casa dentro, por favor!
Noite muito agradável, se não olharmos para tais estranhíssimas, abstrusas e despropositadas iluminárias...
Ideal para levar a namorada (ou o namorado...) comer bem e fazer boa figura.

Resumo

Sala/Mobiliário ****; Porções***; Tempo de espera*; Confecção ****; Serviço ***; WC *** Estacionamento - o; Paisagem/Ambiente ****; Grau de satisfação geral ****
Preço $$$

sábado, 24 de maio de 2008



Adega Nova
R. Francisco Barreto, 24
Faro


A entrada quase evoca - em ambiente popular, claro - as cores e formas do Majestic do Porto, talvez até a monumental Livraria Lello, com o seu colorido de rés de chão e a escadaria central para um primeiro andar com grades em ferro forjado.
As prateleiras e paredes estão cobertas de objectos de colecção, num ambiente povoado de bom gosto, com decoração calorosa e uma alegria imensa de tertúlia algarvia, quase bodegon, quase cervejaria de tipo bierhaus, em elaborado e bem adaptado ao nosso gosto.
Mesas com bancos, ambiente de adega, sim, mas em sofisticado e superior. Junto da Estação ferroviária de Faro não perca, de facto, esta Adega Nova. Um velho e renovado espaço, onde vai comer e encantar-se com o ambiente.
Esqueça o Algarve turístico, onde lhe atiram com o prato e o servem enjoadamente, se virem que é português. Esqueça o roteiro inglês de omoletes e fried chicken, hamburguers e saladas. Esqueça os famélicos restaurantes com vista para o mar e um prato vazio, onde a única coisa com surpreendente grandeza é, no fim de tudo, a conta.
Aqui temos comida de tacho e grelha a portuguesa, cozinhados de peixe bem algarvios –aqueles carapaus limados são uma arte milenar excelentemente reproduzida na confecção da casa. Também o choco fatiado, as espetadas, o arroz de cabidela pareceram-me bem nos pratos de comensais que os encomendaram a meu lado.
Pessoalmente, provei os joaquinzinhos, que estavam no ponto; os carapaus limados, divinais, que já referi; e as favas, com excelente fritura das carnes e enchidos de óptimo sabor, especialmente uma negra de chorar por mais. Curiosa a confecção fritante em vez do habitual embrulhar recozido no molho das favas. Resulta.
A garrafeira é infinita e perlada de tudo o que imaginar. Provei um Herdade das Servas demasiado adstringente para o meu gosto, de maior preferencia por uma certa brandura calma de fim de boca, e troquei por um Herdade de Coteis, marca que desconhecia, mas que cumpriu perfeitamente.
Em boa verdade, sei que se usa, de momento, um certo teor elevado nos taninos, e uma elevada acidez no terminar de boca; mas nunca hei-de conseguir adaptar o gosto que tenho por vinhos tintos encorpados, gordos e de profundo sabor a uva, a frutos maduros, envolventes e doces. As minhas desculpas aos novos enólogos… sabem-me a qualquer coisa entre a casca de diospiro, o marmelo verde e o sabor da própria cortiça. Lamento, nada a fazer.
À sobremesa provei a charlote de chocolate mas, preferindo os doces da região, com destaques para o figo e o morgado da Serra do Caldeirão, optei por este, que estava perfeito, ao nível do melhor pão de rala que possa imaginar-se. Um morgado a sério, letal como bomba calórica, mas saboroso até cair de prazer.
No coração de Faro – cidade que herda seu nome do velho rei árabe Faruk…- o encanto de um viver português, ainda é possível. Ainda é possivel ir comendo com gosto e alegria os nossos velhos sabores a um preço verdadeiramente popular.
Como se consegue? Com uma gestão que se adivinha atenta, inteligente e assomada ao futuro, entendendo o mercado e nunca enganando o cliente, muito próxima da optimização.
O gosto com que se decorou a casa, a alegria de movida, bem ao nível da vizinha Andaluzia, a apresentação e confecção, a luminosidade humana do espaço merecem nota alta. A simpatia do pessoal e os preços também.
Lisboeta, tripeiro ou seja de onde for, uma vez que o Verão vem aí e eventualmente, andará tentado a dar uma espreitada ao Sul, tente esta Adega Nova, bem no coração de Faro, sinta uma agradável surpresa, e voltará sempre.

Resumo

Sala/Mobiliário ****; Porções***; Tempo de espera****; Confecção ****; Serviço ***; WC ****; Estacionamento **; Paisagem/Ambiente ****; Grau de satisfação geral ****
Preço $$

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Restaurante Lawrence’s


Zona Velha
Sintra


Datado de 1764, o Lawrence Hotel é considerado um dos mais antigos hóteis no Mundo. Situado no coração do centro histórico de Sintra, reclama ter obtido a preferência de Lord Byron em 1809. Os clientes poderão pernoitar nesse mesmo quarto onde foi redigido o poema "A peregrinação de Childe Harold". Actualmente, o Hotel promove-se como sendo um "restaurante com quartos", devido à alta qualidade do seu Restaurante à la carte.
Hotel e Restaurante ambos de charme. Entramos e parece que o romance começou.
Aliás, já cá fora a integração do Lawrence’s no enquadramento da velha Sintra é um halo de convite e de mistério. Ocorre-nos, de repente, que o Eça esteja por ali a jantar apesar da sua magrérrima figura e talvez o Ramalho tenha marcado encontro. O Lord Byron virá mais tarde tomar um chocolate e um chá à nossa mesa e o mundo será mais perfeito e justificado.
A história confirmou-se, pois, por curiosidade, o imortal inglês amante de Sintra - ou da velha Cintra, mais precisamente - olhava-me atento, quando me sentei no meu lugar, em gravura de época. Eu bem dizia. Eu previra. O homem continua por ali.
O Lawrence’s é um desses sítios que não precisa de publicitar-se, pois a sua qualidade vem de longe e funde-se na História.
A amesendação é impecável, com toalhas amplas pendentes, numa sala bonita, copos de cristal gravado, louça Vista Alegre também gravada, talheres Arquinox,guardanapos amplos de pano, num ambiente muito british e bastante exclusivo. Os pratos chegam cobertos à mesa e talvez os talheres merecessem ser de prata ou casquinha, mas suponho que também já seja proibido…
Reparei que éramos a única mesa de autóctones lusitanos. Um pormenor esclarecedor.
Como entradas, vieram ovos embrulhados em farinheira, salada de polvo, pasteis de bacalhau e e folhados de bacon. Os pães vêm a escolher de vários formatos e confecções, acompanhados de alperces secos. A folha de escolha, além das entradas típicas (foie gras variados,etc) e pastas de gosto internacional, é um Menu com pouco mais que uma dúzia de pratos. Pessoalmente gosto de Cartas mais pesadas, com mais dignidade, mas sem dúvida que o articulado era explicativo e a folha não deixava de ser elegante.
Foram escolhidos um Magret de pato com molho de framboesas e aromas do campo e um Salmão braseado com risoto de mexilhão e açafrão. A acompanhar uma garrafa de Tapada de Coelheiros Chardonnay.
Os pratos estiveram certos em medida, sabor e apresentação. O rosty de aromas ocultando de forma erudita a batata e o risoto simplesmente divinal. O serviço decorreu com simpatia, sem extremos de sofisticação, mas correcto e eficaz. Além do que pedimos, poderíamos ter avançado para uns Lombos de javali com pêra glaceada sobre raízes de legumes apurados em molhos de Colares e Cepes, um Rolinho de linguado e vieiras ao vapor com arroz basmaty e molho de camarão, ou um Mil folhas de pargo e presunto no forno, por exemplo.
As sobremesas ao gosto inglês, com cheese cakes, profiteroles, tarte de maça merengada com coulis de caramelo, entre outros.
Nota alta para o ambiente e a confecção.
Óptima carta de vinhos, mas já agora… Por muito que respeite a produção da Casa Agrícola e lhe conheça o “bouquet”, este Tapada de Coelheiros é um vulgar e leve Chardonnay, com um discreto e elegante frutado, mas que me parece ainda poder evoluir muito e, de momento, não justifica o preço sinceramente abstruso a que se encontra. O Restaurante não tem culpa disso, claro. Mas, com efeito, os vinhos portugueses andam de cabeça perdida, inflacionados sem justificação, e talvez assim matem a galinha dos ovos de ouro que poderiam constituir, pela sua extrema qualidade.
Uma noite magnifica de gosto, sabor e nobreza numa das mais lindas terras de Portugal. Um charme absoluto, embora os ruidosos comensais ingleses de hoje se riam alto e já não tenham a elegância, o requinte e a nobreza do Lord Byron que tanto andou por aqui.
Uma referência de sempre, a defender-se muito bem na crise de gosto dos tempos que correm, este Lawrence’s. Um traço de classe britânica no coração de Sintra.

Resumo

Sala/Mobiliário ****; Porções***; Tempo de espera***; Confecção *****; Serviço ****; WC ****; Estacionamento ***; Paisagem/Ambiente ****; Grau de satisfação geral *****
Preço $$$$$