quinta-feira, 19 de junho de 2008

SIMPS - Restaurante

Parque Manuel P Coentro
Porto Salvo














Dito assim até parece nome de código. Salvo erro quererá dizer Sociedade de Instrução Musical de Porto Salvo, mas não ponho as mãos no lume pela fidelidade com que interpreto a sigla. Quero lá saber. Porque se um dia destes se perderem pela velha zona de Porto Salvo, experimentem este local de excelência na comida verdadeiramente portuguesa. Isso sim, é importante.
Escondido atrás do coreto no Parque Manuel Coentro - nome premonitório de que algo de culinário ali haveria de acontecer...- vive pacatamente, quase oculta, uma das capelinhas de que tanto gosto de comida portuguesa genuina. Com criatividade, honestidade e imaginação. Grelhados de carne e peixe sempre, mas confecção de tacho com um gosto vernáculo e tradicional de grande e sabedora autenticidade.
Em tempos de outra curtimenta pessoal, uma vez, alguém me disse que a comida tinha de ser feita com amor. E muitas vezes,- oh, quantas vezes!... - a cozinha dá-nos precisamente essa dimensão. Pois é. Tudo está certo, tudo está perfeito, mas nota-se a ausência de gosto, o perfume indisfarçável dos sabores; isto é, o amor e a paixão com que o acto culinário foi praticado não está reflectido na confecção. Porque não existiu. E o certo fica incerto; o perfeito afinal, vira imperfeito.
Não é o caso aqui. Há um gosto visível em cozinhar que se estende ao prazer de ver o cliente satisfeito.
Estávamos com o tempo limitado. Os pratos do dia eram bochechas de porco preto com legumes e pés de leitão de coentrada, que provámos; e ainda costeletas de sardinha, que já tinham esgotado do almoço.
As costeletas de sardinha são um prato quase desconhecido de culinária portuguesa que revelam, só por si, um saber e um trabalho de preparação só possível com dedicação. A tendência é para as fritar, fazer em escabeche, incluir na caldeirada, ou simplesmente grelhar. Mas quem experimentar, percebe porque vale a pena. Atenção que o pitéu tem vários nomes conforme o restaurante, o chef e a região, sendo também conhecido como sardinhas albardadas, filetes fritos de sardinha, etc. por aí fora.
Ambas as provas estavam a satisfazer, mas permito-me salientar os pèzinhos com batata cozida nova e um molho de bradar aos céus no apuro, na seda caldosa, no vinagre, nas ervas, enfim, em tudo o que distingue a tal comida feita com saber e com amor.
Sobremesas de sericaia e requeijão com doce de abóbora caseiro, ambas bem fornecidas e ajustadas.
Ao que parece há às sextas feiras uma sopa rica de peixe que é de experimentar como prato/refeição mais que suficiente. Hei-de provar.
Amplo estacionamento, serviço agradável.
Perdoa-se o sítio meio desajustado para funcionar como restaurante, debaixo da colectividade que lhe dá o nome e o barulho de pulos que, por vezes, vem do primeiro andar, onde se tenta talvez repor com corridas e ginástica a elegância que se perde no rés do chão...
Transição entre a tasca portuguesa e o restaurante de sabor regional não classificado, o palco é montado em toalhas e guardanapos de papel e as alfaias, iluminação, a sala e o ambiente não têm luxos. Gente simples, sem mesuras, com afabilidade natural. O luxo está na comida.
Mas por favor não digam a muita gente.
Estes sítios têm de manter-se assim mesmo.
Com amor pelo que se faz e pelo que se serve.

Resumo

Sala/Mobiliário **; Porções****; Tempo de espera****; Confecção ****; Serviço ***; WC ** Estacionamento -*****; Paisagem/Ambiente **; Grau de satisfação geral ****
Preço $$

domingo, 1 de junho de 2008

Restaurante Sº António



Beco de S. Miguel, nº 7
Lisboa

A velha e saborosa Alfama nunca deixou de ser um emblema único na Lisboa antiga. Um espaço histórico de enorme beleza. As suas ruas, vielas e becos são um traço eterno de uma certa e típica kashbah alfacinha. Nos santos populares a coisa refina, enchendo-se de luz e de cor. Mas basta ver este velho povo simples, que ainda estende a sua roupa na janela ou na porta, e chama o vizinho do lado se precisar de ajuda, e vem para rua cantar o fado em esplanadas improvisadas para sentir que este bairro será eternamente uma alma maior de Lisboa. Respira-se um cheiro marítimo e navegante, como se os navios não parassem de aportar e zarpar e o petisco pairasse no ar, em tasquinhas de vinho a copo, fado vadio e fama perdida.
Há contudo, hoje, uma outra Alfama, nobre e tipica, aproveitada dos imóveis restaurados que começam a surgir aqui e ali, por sua vez fruto de uma renovada visão empresarial, tanto no investimento imobiliário, como numa nova restauração de qualidade.
Nesse quadro, terá sido o que pensaram duas figuras conhecidas da Tv, ambos actores, avançando para um Restaurante de bom nivel no Beco de S. Miguel. Nada menos que um prédio completo, de três pisos, com uma sala por piso e ainda esplanada na entrada, à sombra de uma latada exuberante .
O acolhimento é simpático, feito por pessoal jovem e esforçado, que nos põe uma toalha de papel reciclado na mesa e um aperitivo de casca de batata nova frita com maionese, preparo que está a revelar-se habitual e é, sem dúvida, um achado recente, mas de efeito certo. As azeitonas preparadas e azeitadas com ervas estavam bem e, ao que parece, ajudam a manter os comensais entretidos durante a longa espera. Mas ali não se deve ir com pressas, o local merece disfrute e a culinária também.
Foram pedidas três entradas - salada de endívias, morcela com doce de maçã e pedaços de brie frito com compota. Todas cumpriram, com destaque para a morcela e o brie, que estiveram muito bem. De lamentar que não viessem todas ao mesmo tempo, denotando um desfasamento de serviço. A acompanhar optámos por um tinto de Pias que evoluiu muito quando foi solicitado o jarro de decantação que não viera ab initio.
Na sequência foram encomendados três pratos - Coxa de pato no forno, Bife com molho de mostarda e Magret de pato. Todos os pratos demoraram uma eternidade a chegar mas, sendo noite de sexta feira, ninguém esteve para se incomodar muito com isso. O projecto de noite pode ser precisamente ficar por ali. O ambiente é entre o jovem e o "intelectual/branché", sempre seleccionado; além dos turistas normais, trazidos por indicação casual ou eventual referência em roteiros.
As salas, com efeito, são bem decoradas, com base num espantoso espólio de centenas de fotos de gente ligada as artes, em especial ao cinema. Como se diz em neo calão pós-moderno - está-se bem, apesar dos bancos sem costas em algumas mesas. O sitio é in, fashion e contudo, ao contrário doutros que também estão na moda, por vezes injustificadamente, o espaço é de facto agradável e muito simpático.
O bife esteve tenro, com molho equilibrado, como pertence. As coxas eram imensas e bem apaladadas, embora um pouco rijas. O magret estava muito bom, e embora o chef tivesse optado por um ponto relativamente passado, de optima confecção.
Deram-nos dois molhos possiveis para acompanhamento, um com uma base em sumo de laranja e o outro com o que me pareceu uma redução de molho de soja, caldo do proprio palmípede e talvez Porto. O acompanhamento pouco variou em ambos - couve flor, bróculos, batata estufada na prata com maionese, três pedaços de feijão verde, três pedaços de cenoura e uma fatia de gourgette. Equilibrado.
À sobremesa foi provado um cheese cake que estava bem confeccionado.
Estacionamento impossivel e, já agora, aviso à navegação - é preciso subir um bom pedaço pois trata-se de zona pedonal absoluta, sem passagem de carros.
Na noite lisboeta, é uma surpresa de boa imagem e razoável compromisso qualidade/preço, embora não deva esperar favores na conta final, sobretudo se entrar em vinhos velhos,claro. Aí, passa a caro num instante.
Agora, uma observação muito minha. Eu, pessoalmente, fico chocado ao ver - num local tão vernáculo, tão típico e tão português - um menu carregado de pastas, fetuccinis, carpaccios, magrets e outras especialidades estrangeiras. Os proprietários lá saberão. Mas choca-me. Paciência. Tinha de dizer.
À parte isso, vejo os únicos contras na excessiva lentidão no serviço do chef (equatoriano, imagine-se!...) talvez por ser sexta-feira, mas, sobretudo, coisa que não perdoo, nota negativa demais para dois vasos monumentais em plástico translúcido e iluminado, postos à porta por mão alucinada, kitsh ou simplesmente maldosa. Tirem aquilo dali, urgentemente, em nome do bom gosto que impera pela casa dentro, por favor!
Noite muito agradável, se não olharmos para tais estranhíssimas, abstrusas e despropositadas iluminárias...
Ideal para levar a namorada (ou o namorado...) comer bem e fazer boa figura.

Resumo

Sala/Mobiliário ****; Porções***; Tempo de espera*; Confecção ****; Serviço ***; WC *** Estacionamento - o; Paisagem/Ambiente ****; Grau de satisfação geral ****
Preço $$$

sábado, 24 de maio de 2008



Adega Nova
R. Francisco Barreto, 24
Faro


A entrada quase evoca - em ambiente popular, claro - as cores e formas do Majestic do Porto, talvez até a monumental Livraria Lello, com o seu colorido de rés de chão e a escadaria central para um primeiro andar com grades em ferro forjado.
As prateleiras e paredes estão cobertas de objectos de colecção, num ambiente povoado de bom gosto, com decoração calorosa e uma alegria imensa de tertúlia algarvia, quase bodegon, quase cervejaria de tipo bierhaus, em elaborado e bem adaptado ao nosso gosto.
Mesas com bancos, ambiente de adega, sim, mas em sofisticado e superior. Junto da Estação ferroviária de Faro não perca, de facto, esta Adega Nova. Um velho e renovado espaço, onde vai comer e encantar-se com o ambiente.
Esqueça o Algarve turístico, onde lhe atiram com o prato e o servem enjoadamente, se virem que é português. Esqueça o roteiro inglês de omoletes e fried chicken, hamburguers e saladas. Esqueça os famélicos restaurantes com vista para o mar e um prato vazio, onde a única coisa com surpreendente grandeza é, no fim de tudo, a conta.
Aqui temos comida de tacho e grelha a portuguesa, cozinhados de peixe bem algarvios –aqueles carapaus limados são uma arte milenar excelentemente reproduzida na confecção da casa. Também o choco fatiado, as espetadas, o arroz de cabidela pareceram-me bem nos pratos de comensais que os encomendaram a meu lado.
Pessoalmente, provei os joaquinzinhos, que estavam no ponto; os carapaus limados, divinais, que já referi; e as favas, com excelente fritura das carnes e enchidos de óptimo sabor, especialmente uma negra de chorar por mais. Curiosa a confecção fritante em vez do habitual embrulhar recozido no molho das favas. Resulta.
A garrafeira é infinita e perlada de tudo o que imaginar. Provei um Herdade das Servas demasiado adstringente para o meu gosto, de maior preferencia por uma certa brandura calma de fim de boca, e troquei por um Herdade de Coteis, marca que desconhecia, mas que cumpriu perfeitamente.
Em boa verdade, sei que se usa, de momento, um certo teor elevado nos taninos, e uma elevada acidez no terminar de boca; mas nunca hei-de conseguir adaptar o gosto que tenho por vinhos tintos encorpados, gordos e de profundo sabor a uva, a frutos maduros, envolventes e doces. As minhas desculpas aos novos enólogos… sabem-me a qualquer coisa entre a casca de diospiro, o marmelo verde e o sabor da própria cortiça. Lamento, nada a fazer.
À sobremesa provei a charlote de chocolate mas, preferindo os doces da região, com destaques para o figo e o morgado da Serra do Caldeirão, optei por este, que estava perfeito, ao nível do melhor pão de rala que possa imaginar-se. Um morgado a sério, letal como bomba calórica, mas saboroso até cair de prazer.
No coração de Faro – cidade que herda seu nome do velho rei árabe Faruk…- o encanto de um viver português, ainda é possível. Ainda é possivel ir comendo com gosto e alegria os nossos velhos sabores a um preço verdadeiramente popular.
Como se consegue? Com uma gestão que se adivinha atenta, inteligente e assomada ao futuro, entendendo o mercado e nunca enganando o cliente, muito próxima da optimização.
O gosto com que se decorou a casa, a alegria de movida, bem ao nível da vizinha Andaluzia, a apresentação e confecção, a luminosidade humana do espaço merecem nota alta. A simpatia do pessoal e os preços também.
Lisboeta, tripeiro ou seja de onde for, uma vez que o Verão vem aí e eventualmente, andará tentado a dar uma espreitada ao Sul, tente esta Adega Nova, bem no coração de Faro, sinta uma agradável surpresa, e voltará sempre.

Resumo

Sala/Mobiliário ****; Porções***; Tempo de espera****; Confecção ****; Serviço ***; WC ****; Estacionamento **; Paisagem/Ambiente ****; Grau de satisfação geral ****
Preço $$

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Restaurante Lawrence’s


Zona Velha
Sintra


Datado de 1764, o Lawrence Hotel é considerado um dos mais antigos hóteis no Mundo. Situado no coração do centro histórico de Sintra, reclama ter obtido a preferência de Lord Byron em 1809. Os clientes poderão pernoitar nesse mesmo quarto onde foi redigido o poema "A peregrinação de Childe Harold". Actualmente, o Hotel promove-se como sendo um "restaurante com quartos", devido à alta qualidade do seu Restaurante à la carte.
Hotel e Restaurante ambos de charme. Entramos e parece que o romance começou.
Aliás, já cá fora a integração do Lawrence’s no enquadramento da velha Sintra é um halo de convite e de mistério. Ocorre-nos, de repente, que o Eça esteja por ali a jantar apesar da sua magrérrima figura e talvez o Ramalho tenha marcado encontro. O Lord Byron virá mais tarde tomar um chocolate e um chá à nossa mesa e o mundo será mais perfeito e justificado.
A história confirmou-se, pois, por curiosidade, o imortal inglês amante de Sintra - ou da velha Cintra, mais precisamente - olhava-me atento, quando me sentei no meu lugar, em gravura de época. Eu bem dizia. Eu previra. O homem continua por ali.
O Lawrence’s é um desses sítios que não precisa de publicitar-se, pois a sua qualidade vem de longe e funde-se na História.
A amesendação é impecável, com toalhas amplas pendentes, numa sala bonita, copos de cristal gravado, louça Vista Alegre também gravada, talheres Arquinox,guardanapos amplos de pano, num ambiente muito british e bastante exclusivo. Os pratos chegam cobertos à mesa e talvez os talheres merecessem ser de prata ou casquinha, mas suponho que também já seja proibido…
Reparei que éramos a única mesa de autóctones lusitanos. Um pormenor esclarecedor.
Como entradas, vieram ovos embrulhados em farinheira, salada de polvo, pasteis de bacalhau e e folhados de bacon. Os pães vêm a escolher de vários formatos e confecções, acompanhados de alperces secos. A folha de escolha, além das entradas típicas (foie gras variados,etc) e pastas de gosto internacional, é um Menu com pouco mais que uma dúzia de pratos. Pessoalmente gosto de Cartas mais pesadas, com mais dignidade, mas sem dúvida que o articulado era explicativo e a folha não deixava de ser elegante.
Foram escolhidos um Magret de pato com molho de framboesas e aromas do campo e um Salmão braseado com risoto de mexilhão e açafrão. A acompanhar uma garrafa de Tapada de Coelheiros Chardonnay.
Os pratos estiveram certos em medida, sabor e apresentação. O rosty de aromas ocultando de forma erudita a batata e o risoto simplesmente divinal. O serviço decorreu com simpatia, sem extremos de sofisticação, mas correcto e eficaz. Além do que pedimos, poderíamos ter avançado para uns Lombos de javali com pêra glaceada sobre raízes de legumes apurados em molhos de Colares e Cepes, um Rolinho de linguado e vieiras ao vapor com arroz basmaty e molho de camarão, ou um Mil folhas de pargo e presunto no forno, por exemplo.
As sobremesas ao gosto inglês, com cheese cakes, profiteroles, tarte de maça merengada com coulis de caramelo, entre outros.
Nota alta para o ambiente e a confecção.
Óptima carta de vinhos, mas já agora… Por muito que respeite a produção da Casa Agrícola e lhe conheça o “bouquet”, este Tapada de Coelheiros é um vulgar e leve Chardonnay, com um discreto e elegante frutado, mas que me parece ainda poder evoluir muito e, de momento, não justifica o preço sinceramente abstruso a que se encontra. O Restaurante não tem culpa disso, claro. Mas, com efeito, os vinhos portugueses andam de cabeça perdida, inflacionados sem justificação, e talvez assim matem a galinha dos ovos de ouro que poderiam constituir, pela sua extrema qualidade.
Uma noite magnifica de gosto, sabor e nobreza numa das mais lindas terras de Portugal. Um charme absoluto, embora os ruidosos comensais ingleses de hoje se riam alto e já não tenham a elegância, o requinte e a nobreza do Lord Byron que tanto andou por aqui.
Uma referência de sempre, a defender-se muito bem na crise de gosto dos tempos que correm, este Lawrence’s. Um traço de classe britânica no coração de Sintra.

Resumo

Sala/Mobiliário ****; Porções***; Tempo de espera***; Confecção *****; Serviço ****; WC ****; Estacionamento ***; Paisagem/Ambiente ****; Grau de satisfação geral *****
Preço $$$$$

domingo, 20 de abril de 2008

O Velho Mirante

Rua Sº Elói, nº 2
Pontinha

O velho Mirante foi, em tempos, a porta de entrada do que hoje é a imensa Pontinha. Se há edifício histórico em tal suburbana praça, é seguramente este. De pé direito imenso e pórtico de ferro majestoso e castelão, é um espaço com pátio traseiro, arcadas altas e cantarias de origem, travejamento em madeira e um perfume de séculos passados. Argolas para prender o cavalo à porta, com armários de madeira embutidos, logo ao lado, o que sugere que, noutros tempos, talvez, tivessem servido para guardar os arreios. O espaço tem carisma e é pena que os novos móveis de frio tão estandardizados impliquem desgostosamente com um conjunto que, de outro modo, seria de uma rusticidade exemplar.
Primeira impressão positiva mas, depois, esta minha velha mania de ver os detalhes todos, começa a estragar a opinião. Com efeito, além dos frigoríficos/arcas que são sempre feios e atravancam o espaço, também os imensos aparelhos de ar condicionado se desajustam do décor. Mas há mais. As paredes ostentam objectos de bom gosto e antiguidade a par com cachos de uvas de plástico pendurados nas traves (!).
As mesas são, em parte, de bonitos e rústicos tampos de barris - o que as torna indicadas para 2 pessoas, mas exíguas para 4, impedindo a colocação das travessas. Mas, acima de tudo, aquelas inestéticas, pirosas e muitíssimo incómodas cadeiras, de discutível estética pós moderna, completamente desintegradas do ambiente e com um espaço mínimo para a função de receber assento, merecem uma nota desvalorizante em relação a uma sala que, afinal, poderia ser lindíssima.
Toalhas individuais e guardanapos de papel. Pão na cesta forrada a pano. Talheres regulares.
Há entradas para todos os gostos, desde ovos com farinheira, a alheiras, queijo, presunto, patês, salpicão de porco preto, morcela, chouriço assado, linguiça etc. Contudo, aos fins-de-semana, como foi o caso da nossa visita, nem tempo havia para instalar as pessoas que faziam imensa bicha na porta à espera de lugar. Os empregados pareciam, com efeito, insuficientes para o número de famintos comensais que ali afluem, e o serviço de cozinha é entre o muitíssimo lento e o exasperante.
À minha frente, para meu próprio enervamento, uma mesa de 4 pessoas esperou uma hora pelas suas doses! É sempre inexplicável. Se não há estruturas de bastidor para encher a sala deste modo, não se deve exagerar, pois o serviço ressente-se e o cliente não veio ali para sofrer, mas sim para se divertir, comer bem e passar um tempo com a família ou os amigos. Assim, a revolta na sala era patente e o desespero apoderou-se muito justamente de um cavalheiro que começou a fazer comentários mais alto, num ambiente de crispação desnecessário e sempre desagradável.
Toda a comida que vi passar tinha um aspecto de muito boa confecção. No nosso caso foi pedido um prato do dia - rancho, e bacalhau à minhota. Ambos vieram excelentes. Quando digo excelentes, digo excelentíssimos. Tão extraordinários de quantidade, como em qualidade; uma raridade. Perfume, sabor, textura, molho, confecção de nota superior. Um pequeno senão no acompanhamento de batatas do bacalhau que se resumiu a algumas perdidas por cima da posta gigante. Pedido um reforço, chegou na hora da sobremesa… Sem comentários.
Os clientes acantonam-se, sem qualidade de espaço, dando a sensação que a casa quer encaixar mais gente do que deveria e as decantadas normas de segurança aconselhariam. Com efeito, em caso de emergência, o evacuar da sala parece-me entre o problemático e o eventualmente trágico…
Casas de banho razoáveis, limpas, claras e com cabide. Mas, pelo menos no lado masculino, talvez momentaneamente, sem cesto para papeis e com a clarabóia suja. Estacionamento difícil. Recomenda-se reserva antecipada e uma dose muito elevada de paciência aos fins-de-semana, ou não vá.
Em condições normais, o Velho Mirante é um sítio onde se come excelentemente, por um preço módico. Podia ser um portentoso Restaurante de comida portuguesa.
Mas, tal como o vivi, com um ambiente cheio de famílias, com ruído, crianças chorando, clientes coléricos e em desespero e serviço obviamente comprometido por uma cozinha que pura e simplesmente não despachava... assim não! Não sei as razões da gerência que presidem aos critérios; podem até, estar cheios de razão nas suas opções; mas, na óptica do cliente, senti esse almoço de domingo como um encavalitamento de gente, desagradável e confuso.
Fugi, de resto, até, sem sobremesa. Café, conta, e ala! Uff!
Valor alto para a qualidade, quantidade e confecção. Mas atenção; isso não é tudo em restauração! Há muito que corrigir na sala, no tempo de serviço, no atendimento, no apoio de cozinha, na simpatia, na atenção, nos pormenores, na distribuição do espaço, no mobiliário e no tratamento condigno do cliente.
O velho Mirante e a sua excelente confecção mereciam essa atenção.

RESUMO
Sala/Mobiliário ***; Porções*****; Tempo de espera*; Confecção ****; Serviço **; WC ***; Estacionamento **; Paisagem/Ambiente **; Grau de satisfação geral ***
Preço $$

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A Marítima de Xabregas

Rua da Manutenção 40 - Lisboa
1900-320 LISBOA

Por vezes esquecemos que Lisboa é uma cidade portuária e que a tradição marítima tem a sua componente peculiar. Algumas casas ainda evocam essa actividade portuária em zonas costeiras de Belém a Cabo Ruivo, e algumas envergam como emblema no seu nome essa designação orgulhosamente. Há esta de que vos falo aqui hoje, e pelo menos uma outra, que eu saiba, na Trafaria.
A Marítima de Xabregas é uma dessas casas ainda de parreirinha à porta e grelhados a carvão. Que nostalgia tenho de uma Lisboa onde encontrava, em tempos, tasquinhas com grelha fumando à entrada, que nos davam à hora do almoço a majestosa pré-gustação dos seus pitéus, com um cheiro a entremeadas, couratos, febras, sardinhas e carapaus fundindo-se no ar.
Sim, eu sei que o vizinho de cima também é gente, e tem de estender a roupa no estendal e viver a sua vida. Mas continuo a achar, que numa cidade ideal onde ninguém abusasse de ninguém, sempre que possível, esse espírito e apelativo visual deveria ser permitido. É hipócrita que se não permita lançar o fumo ali ao nível do 1º andar e se permita a mesmíssima poluição um ou dois andares acima. Sempre achei também que é uma imagem bonita e tipicamente nossa, de abanador na mão. Os turistas deleitam-se com esse aspecto, aliás salutar, da nossa culinária; e já agora, a imagem de uma cidade como Setúbal, por exemplo, nunca será a mesma se amanhã proibirem os restaurantes de grelha ao ar livre.
Preocupante, a meu ver. Mas adiante.
Tudo isto vem a propósito da casa de cerca de 140 lugares sita em Xabregas e onde se comem os mais famosos filetes de peixe-galo (17€!) bem como toda a espécie de grelhados no carvão. O ambiente é informal e barulhento, mas a confecção é boa e vem com apresentação muito acima das expectativas para uma casa do género.
Da ementa fazem parte ainda regularmente frango de cabidela, irozes de todas as formas e feitios, grelhadas ou em ensopado, bem como todo o tipo de peixe em geral. Nas carnes, o cozido à portuguesa à 5ª-feira parece ter procura e tanto quanto vi no vizinho do lado tinha óptima catadura. Carne maronesa; mais um estabelecimento felizmente preocupado com esse detalhe de determinação de origem controlada e à vista do cliente.
Entradas postas na mesa constituídas por queijo de ovelha e presunto pata negra muito fino e de boa origem e sabor, ambos cortados na hora. Foram pedidos uma corvina grelhada e chocos à algarvia. Ambos excelentes e no ponto. Atenção que os chocos, por vezes a pretexto de uma tipicidade duvidosa, trazem o talo e a boca calosa e são gravemente infanticidas. Aqui não. A apresentação feita em travessas-marcador com cenoura cortada,beringela e brócolos no ponto, esteve visualmente correcta e com nota alta.
Petiscos fora de horas, como caracóis e ainda conquilhas, berbigão e amêijoa a fazer lembrar a presença, ali mesmo ao lado, do Mar da Palha.
Três salas com amesendação de toalhas e guardanapos de pano e apenas cobertura de protecção em papel. Serviço sem mordomias nem atenções especiais. Ambiente descontraído e televisão acesa… Mas se gosta de comer bem e andar pela zona oriental da cidade, pode ir.
Marítimo ou não.

RESUMO
Sala/Mobiliário **; Porções***; Tempo de espera***; Confecção ****; Serviço ***; WC **; Estacionamento ***; Paisagem/Ambiente **; Grau de satisfação geral ***
Preço $$$

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Restaurante Doca Peixe

Docas/Alcântara
Lisboa

O espaço de repastos à beira rio nas docas é, de certo modo, uma sala de visitas de Lisboa que hoje nos orgulha e que muito custou a conquistar. Há vinte anos era um espaço imundo e descuidado e esta geração não sabe quanto privilégio e charme disfruta só por uma coisa tão simples que Lisboa descurou tempo demais e entretanto, felizmente, aprendeu a tratar devidamente. A sua beleza de cidade de beira-mar.
Entre as muitas opções de restauração ali apresentadas, visitámos recentemente uma das melhores referências entre as escolhas possíveis. Quase ao fundo da fila o Restaurante Doca Peixe.
Esplanada serena numa noite de quase Verão, com amesendação cuidada e em pano, cadeiras de esplanada em verga. No primeiro andar cadeiras Thonet. Os marcadores vermelhos (!), a frequência de classe média-alta, avultando alguns turistas de bom ar. Pessoal de avental negro, simpático e quase sempre atento. Vista muito agradável para a marina.
Um primeiro contra verificado foi o barulho da Ponte, que a enigmática composição modernista de uma estrutura gafanhótica entretanto construida supostamente deveria combater. Dinheiro ao rio, é caso para se dizer. O comboio ao passar deixa-nos sem palavras. Mas adiante, que a noite maravilha apenas começava.
As entradas, com base em preparos variados sobre um mesmo tema de gambas e várias pastas amariscadas, estiveram soberbas. Destaque para as gambas com molho reduzido de Porto e couve roxa glaceada, um queijo de Azeitão de bom fabrico, uns ovos de recheio divinal, uns pimentinhos grelhados no sal com um preparo de marisco em cama de endívias acompanhados de casca de batata nova frita, mas sobretudo uma papaia recheada que me encheu as medidas na elegância da apresentação e no sabor.
Estando em grupo de quatro comensais encomendámos e foram testados: uma sopa do Presidente – consomé cremoso de mariscos, com curiosa apresentação de massa tenra opada fechando a boca da malga; o arroz de tomate – excelente - com linguadinhos fritos – fresquíssimos, acompanhados de tomatinhos “cherry”; um arroz de lagosta de boa confecção – ao qual eu retiraria as cascas da lagosta, mas muito equilibrado; um bife de atum com fatia de presunto – no ponto certo, nem mais nem menos um minuto que o devido (talvez merecendo mais cebola, a meu ver); e um cantaril escalado e grelhado, de muito boa consistência e catadura, com feijao verde e azeite de ervas preparado em molheira a parte.
Em tudo se adivinha uma confecção feita com gosto e criatividade. Acompanharam-nos um tinto alentejano José de Sousa, muito macio e elegante, e um branco duriense Murganheira levíssimo, que estiveram bem.
A carta de tintos, não sendo muito extensa abrange 15 alentejanos, 6 Douros, 1 Dão, 2Almeirins e 2 Estremaduras, fechando com 3 vinhos da zona de Setúbal. Nos brancos há 3 Verdes, 7 maduros do Alentejo, 3 do Dão, 5 de Setúbal e ainda rosés, sangrias e champanhe, para quem preferir. Lista escassa, mas com boas escolhas no essencial.
Enumero algumas sobremesas, apenas para que sofram um pouco mais. Mousse de frutos silvestres; encharcadas e trouxas caseiras; mousse de after-eight – o célebre chocolate com recheio inglês; tarte de limão merengada e um extraordinário crumbled de maçã, o melhor que comi até hoje na minha vida. Não precisava do gelado para nada, a não ser para compor o prato. Vinte valores!
Contras? Quase nada. O preço, claro. Também não gosto nem da cor nem do material dos marcadores e os Menus de cartolina merecem reforma, por favor. A qualidade da cozinha agradece. Além disso, o espaço merecia mais silêncio que o que a vizinha Ponte lhe proporciona, mas isso,claro...; e há algumas dificuldades de estacionamento próximo.
Relevo um óptimo ambiente, um local bonito, uma restauração séria, com uma confecção superior e uma Chefe competente e criativa, à altura de qualquer desafio.
Caro, mas muito bom. Assim, sim.


Sala/Mobiliário ****; Porções*****; Tempo de espera***; Confecção *****; Serviço ***; WC ****; Estacionamento **; Paisagem/Ambiente *****; Grau de satisfação geral *****
Preço $$$$$