domingo, 20 de abril de 2008

O Velho Mirante

Rua Sº Elói, nº 2
Pontinha

O velho Mirante foi, em tempos, a porta de entrada do que hoje é a imensa Pontinha. Se há edifício histórico em tal suburbana praça, é seguramente este. De pé direito imenso e pórtico de ferro majestoso e castelão, é um espaço com pátio traseiro, arcadas altas e cantarias de origem, travejamento em madeira e um perfume de séculos passados. Argolas para prender o cavalo à porta, com armários de madeira embutidos, logo ao lado, o que sugere que, noutros tempos, talvez, tivessem servido para guardar os arreios. O espaço tem carisma e é pena que os novos móveis de frio tão estandardizados impliquem desgostosamente com um conjunto que, de outro modo, seria de uma rusticidade exemplar.
Primeira impressão positiva mas, depois, esta minha velha mania de ver os detalhes todos, começa a estragar a opinião. Com efeito, além dos frigoríficos/arcas que são sempre feios e atravancam o espaço, também os imensos aparelhos de ar condicionado se desajustam do décor. Mas há mais. As paredes ostentam objectos de bom gosto e antiguidade a par com cachos de uvas de plástico pendurados nas traves (!).
As mesas são, em parte, de bonitos e rústicos tampos de barris - o que as torna indicadas para 2 pessoas, mas exíguas para 4, impedindo a colocação das travessas. Mas, acima de tudo, aquelas inestéticas, pirosas e muitíssimo incómodas cadeiras, de discutível estética pós moderna, completamente desintegradas do ambiente e com um espaço mínimo para a função de receber assento, merecem uma nota desvalorizante em relação a uma sala que, afinal, poderia ser lindíssima.
Toalhas individuais e guardanapos de papel. Pão na cesta forrada a pano. Talheres regulares.
Há entradas para todos os gostos, desde ovos com farinheira, a alheiras, queijo, presunto, patês, salpicão de porco preto, morcela, chouriço assado, linguiça etc. Contudo, aos fins-de-semana, como foi o caso da nossa visita, nem tempo havia para instalar as pessoas que faziam imensa bicha na porta à espera de lugar. Os empregados pareciam, com efeito, insuficientes para o número de famintos comensais que ali afluem, e o serviço de cozinha é entre o muitíssimo lento e o exasperante.
À minha frente, para meu próprio enervamento, uma mesa de 4 pessoas esperou uma hora pelas suas doses! É sempre inexplicável. Se não há estruturas de bastidor para encher a sala deste modo, não se deve exagerar, pois o serviço ressente-se e o cliente não veio ali para sofrer, mas sim para se divertir, comer bem e passar um tempo com a família ou os amigos. Assim, a revolta na sala era patente e o desespero apoderou-se muito justamente de um cavalheiro que começou a fazer comentários mais alto, num ambiente de crispação desnecessário e sempre desagradável.
Toda a comida que vi passar tinha um aspecto de muito boa confecção. No nosso caso foi pedido um prato do dia - rancho, e bacalhau à minhota. Ambos vieram excelentes. Quando digo excelentes, digo excelentíssimos. Tão extraordinários de quantidade, como em qualidade; uma raridade. Perfume, sabor, textura, molho, confecção de nota superior. Um pequeno senão no acompanhamento de batatas do bacalhau que se resumiu a algumas perdidas por cima da posta gigante. Pedido um reforço, chegou na hora da sobremesa… Sem comentários.
Os clientes acantonam-se, sem qualidade de espaço, dando a sensação que a casa quer encaixar mais gente do que deveria e as decantadas normas de segurança aconselhariam. Com efeito, em caso de emergência, o evacuar da sala parece-me entre o problemático e o eventualmente trágico…
Casas de banho razoáveis, limpas, claras e com cabide. Mas, pelo menos no lado masculino, talvez momentaneamente, sem cesto para papeis e com a clarabóia suja. Estacionamento difícil. Recomenda-se reserva antecipada e uma dose muito elevada de paciência aos fins-de-semana, ou não vá.
Em condições normais, o Velho Mirante é um sítio onde se come excelentemente, por um preço módico. Podia ser um portentoso Restaurante de comida portuguesa.
Mas, tal como o vivi, com um ambiente cheio de famílias, com ruído, crianças chorando, clientes coléricos e em desespero e serviço obviamente comprometido por uma cozinha que pura e simplesmente não despachava... assim não! Não sei as razões da gerência que presidem aos critérios; podem até, estar cheios de razão nas suas opções; mas, na óptica do cliente, senti esse almoço de domingo como um encavalitamento de gente, desagradável e confuso.
Fugi, de resto, até, sem sobremesa. Café, conta, e ala! Uff!
Valor alto para a qualidade, quantidade e confecção. Mas atenção; isso não é tudo em restauração! Há muito que corrigir na sala, no tempo de serviço, no atendimento, no apoio de cozinha, na simpatia, na atenção, nos pormenores, na distribuição do espaço, no mobiliário e no tratamento condigno do cliente.
O velho Mirante e a sua excelente confecção mereciam essa atenção.

RESUMO
Sala/Mobiliário ***; Porções*****; Tempo de espera*; Confecção ****; Serviço **; WC ***; Estacionamento **; Paisagem/Ambiente **; Grau de satisfação geral ***
Preço $$

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A Marítima de Xabregas

Rua da Manutenção 40 - Lisboa
1900-320 LISBOA

Por vezes esquecemos que Lisboa é uma cidade portuária e que a tradição marítima tem a sua componente peculiar. Algumas casas ainda evocam essa actividade portuária em zonas costeiras de Belém a Cabo Ruivo, e algumas envergam como emblema no seu nome essa designação orgulhosamente. Há esta de que vos falo aqui hoje, e pelo menos uma outra, que eu saiba, na Trafaria.
A Marítima de Xabregas é uma dessas casas ainda de parreirinha à porta e grelhados a carvão. Que nostalgia tenho de uma Lisboa onde encontrava, em tempos, tasquinhas com grelha fumando à entrada, que nos davam à hora do almoço a majestosa pré-gustação dos seus pitéus, com um cheiro a entremeadas, couratos, febras, sardinhas e carapaus fundindo-se no ar.
Sim, eu sei que o vizinho de cima também é gente, e tem de estender a roupa no estendal e viver a sua vida. Mas continuo a achar, que numa cidade ideal onde ninguém abusasse de ninguém, sempre que possível, esse espírito e apelativo visual deveria ser permitido. É hipócrita que se não permita lançar o fumo ali ao nível do 1º andar e se permita a mesmíssima poluição um ou dois andares acima. Sempre achei também que é uma imagem bonita e tipicamente nossa, de abanador na mão. Os turistas deleitam-se com esse aspecto, aliás salutar, da nossa culinária; e já agora, a imagem de uma cidade como Setúbal, por exemplo, nunca será a mesma se amanhã proibirem os restaurantes de grelha ao ar livre.
Preocupante, a meu ver. Mas adiante.
Tudo isto vem a propósito da casa de cerca de 140 lugares sita em Xabregas e onde se comem os mais famosos filetes de peixe-galo (17€!) bem como toda a espécie de grelhados no carvão. O ambiente é informal e barulhento, mas a confecção é boa e vem com apresentação muito acima das expectativas para uma casa do género.
Da ementa fazem parte ainda regularmente frango de cabidela, irozes de todas as formas e feitios, grelhadas ou em ensopado, bem como todo o tipo de peixe em geral. Nas carnes, o cozido à portuguesa à 5ª-feira parece ter procura e tanto quanto vi no vizinho do lado tinha óptima catadura. Carne maronesa; mais um estabelecimento felizmente preocupado com esse detalhe de determinação de origem controlada e à vista do cliente.
Entradas postas na mesa constituídas por queijo de ovelha e presunto pata negra muito fino e de boa origem e sabor, ambos cortados na hora. Foram pedidos uma corvina grelhada e chocos à algarvia. Ambos excelentes e no ponto. Atenção que os chocos, por vezes a pretexto de uma tipicidade duvidosa, trazem o talo e a boca calosa e são gravemente infanticidas. Aqui não. A apresentação feita em travessas-marcador com cenoura cortada,beringela e brócolos no ponto, esteve visualmente correcta e com nota alta.
Petiscos fora de horas, como caracóis e ainda conquilhas, berbigão e amêijoa a fazer lembrar a presença, ali mesmo ao lado, do Mar da Palha.
Três salas com amesendação de toalhas e guardanapos de pano e apenas cobertura de protecção em papel. Serviço sem mordomias nem atenções especiais. Ambiente descontraído e televisão acesa… Mas se gosta de comer bem e andar pela zona oriental da cidade, pode ir.
Marítimo ou não.

RESUMO
Sala/Mobiliário **; Porções***; Tempo de espera***; Confecção ****; Serviço ***; WC **; Estacionamento ***; Paisagem/Ambiente **; Grau de satisfação geral ***
Preço $$$

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Restaurante Doca Peixe

Docas/Alcântara
Lisboa

O espaço de repastos à beira rio nas docas é, de certo modo, uma sala de visitas de Lisboa que hoje nos orgulha e que muito custou a conquistar. Há vinte anos era um espaço imundo e descuidado e esta geração não sabe quanto privilégio e charme disfruta só por uma coisa tão simples que Lisboa descurou tempo demais e entretanto, felizmente, aprendeu a tratar devidamente. A sua beleza de cidade de beira-mar.
Entre as muitas opções de restauração ali apresentadas, visitámos recentemente uma das melhores referências entre as escolhas possíveis. Quase ao fundo da fila o Restaurante Doca Peixe.
Esplanada serena numa noite de quase Verão, com amesendação cuidada e em pano, cadeiras de esplanada em verga. No primeiro andar cadeiras Thonet. Os marcadores vermelhos (!), a frequência de classe média-alta, avultando alguns turistas de bom ar. Pessoal de avental negro, simpático e quase sempre atento. Vista muito agradável para a marina.
Um primeiro contra verificado foi o barulho da Ponte, que a enigmática composição modernista de uma estrutura gafanhótica entretanto construida supostamente deveria combater. Dinheiro ao rio, é caso para se dizer. O comboio ao passar deixa-nos sem palavras. Mas adiante, que a noite maravilha apenas começava.
As entradas, com base em preparos variados sobre um mesmo tema de gambas e várias pastas amariscadas, estiveram soberbas. Destaque para as gambas com molho reduzido de Porto e couve roxa glaceada, um queijo de Azeitão de bom fabrico, uns ovos de recheio divinal, uns pimentinhos grelhados no sal com um preparo de marisco em cama de endívias acompanhados de casca de batata nova frita, mas sobretudo uma papaia recheada que me encheu as medidas na elegância da apresentação e no sabor.
Estando em grupo de quatro comensais encomendámos e foram testados: uma sopa do Presidente – consomé cremoso de mariscos, com curiosa apresentação de massa tenra opada fechando a boca da malga; o arroz de tomate – excelente - com linguadinhos fritos – fresquíssimos, acompanhados de tomatinhos “cherry”; um arroz de lagosta de boa confecção – ao qual eu retiraria as cascas da lagosta, mas muito equilibrado; um bife de atum com fatia de presunto – no ponto certo, nem mais nem menos um minuto que o devido (talvez merecendo mais cebola, a meu ver); e um cantaril escalado e grelhado, de muito boa consistência e catadura, com feijao verde e azeite de ervas preparado em molheira a parte.
Em tudo se adivinha uma confecção feita com gosto e criatividade. Acompanharam-nos um tinto alentejano José de Sousa, muito macio e elegante, e um branco duriense Murganheira levíssimo, que estiveram bem.
A carta de tintos, não sendo muito extensa abrange 15 alentejanos, 6 Douros, 1 Dão, 2Almeirins e 2 Estremaduras, fechando com 3 vinhos da zona de Setúbal. Nos brancos há 3 Verdes, 7 maduros do Alentejo, 3 do Dão, 5 de Setúbal e ainda rosés, sangrias e champanhe, para quem preferir. Lista escassa, mas com boas escolhas no essencial.
Enumero algumas sobremesas, apenas para que sofram um pouco mais. Mousse de frutos silvestres; encharcadas e trouxas caseiras; mousse de after-eight – o célebre chocolate com recheio inglês; tarte de limão merengada e um extraordinário crumbled de maçã, o melhor que comi até hoje na minha vida. Não precisava do gelado para nada, a não ser para compor o prato. Vinte valores!
Contras? Quase nada. O preço, claro. Também não gosto nem da cor nem do material dos marcadores e os Menus de cartolina merecem reforma, por favor. A qualidade da cozinha agradece. Além disso, o espaço merecia mais silêncio que o que a vizinha Ponte lhe proporciona, mas isso,claro...; e há algumas dificuldades de estacionamento próximo.
Relevo um óptimo ambiente, um local bonito, uma restauração séria, com uma confecção superior e uma Chefe competente e criativa, à altura de qualquer desafio.
Caro, mas muito bom. Assim, sim.


Sala/Mobiliário ****; Porções*****; Tempo de espera***; Confecção *****; Serviço ***; WC ****; Estacionamento **; Paisagem/Ambiente *****; Grau de satisfação geral *****
Preço $$$$$

quarta-feira, 19 de março de 2008

A Casa do Bacalhau

R Grilo 54
Lisboa

Na zona oriental da cidade desde há centenas de anos, se construiram mansões solarengas de fidalgos e suas cortes, mais ou menos numerosas, de criadagem, que desde o Paço por esse Tejo arriba foram subindo a montante (daí a palavra Ribatejo, já pensou?...) habitando espaços amplos, quase palácios, alguns de arcadas soberbas, pés direitos invulgares e sentido de espaço acima do comum. Em Chelas, Xabregas e Beato, além dos casos sociais problemáticos, há edificios cheios de história, abandonados, alguns de posse por definir, ao que sabemos; outros há, cuja propriedade já terá caído no Municipio, e que num país de Cultura e cuidado já estariam restaurados, mas que aqui continuam por reabilitar.
A Casa do Bacalhau está nessa zona há cerca de seis anos, onde aproveitou um espaço magnifico, que se diz ter sido das antigas cavalariças do palácio do Duque de Lafões. E tem, talvez, dos tectos mais bonitos da restauração lisboeta. Mas não me revejo nem no resto dos materiais, nem na linguagem estética optada para a sua arquitectura de interiores, com recurso a contraplacados baratos e linhas direitas, que nada conjugam com as arcadas em ogiva, magnificas e monumentais, descarnadas ao tijolo de origem e expostas em toda a sua beleza.
O estacionamento é razoavel, se não houver enchente, devido a um pequeno largo dianteiro. Mesas cobertas com pano e guardanapos também de pano. Cadeiras bonitas e muito confortáveis. Talheres regulares e copos que bem poderiam ser de verdadeiro cristal; veremos adiante porquê. Ausência de marcadores ou centro de mesa.
A ementa propõe sopas, um primeiro prato, um segundo prato e sobremesas. Tem razão, é mesmo preciso.
Na mesa, pão à fatia e azeitonas pisadas, ambos de bom registo. Agora manteiga de pacotinhos é que não...
Foi pedido, para tres comensais, um pratinho de entrada de pastéis de bacalhau (excelentes, vinte valores) e depois um bacalhau verde e uma dose de linguas de coentrada. Ao saber dividido o tal prato verde por duas senhoras presentes, o empregado deu um segundo e terceiro olhar de surda critica latente, que não tem de efectuar. Reprovável.
Vieram os pratos, mas há muito tempo já que teriam sido aquecidos, pois estavam quase frios.
Não nos foi explicado que o bacalhau verde era afinal bacalhau - muito pouco - embrulhado habilmente em couve - muita! - com pimentos vermelhos a enfeitar e tudo salteado em azeite. Agradável e simples confecção, mas com uma quantidade de bacalhau absolutamente ridicula.
As linguas de coentrada estavam divinais, com um molho apurado, no ponto, excelentes e vinham apenas acompanhadas de pequeníssimos triangulos de pão frito. Foi pedido um arroz que estava muito bom, mas chegou demasiado tardio.
A acompanhar, não havendo vinhos da casa, veio uma garrafa de Alabastro branco, vinho leve, aberto e alegre, que se desempenhou bem.
Experimentámos no final farófias de boa consistência e molho agradável.
Numa análise geral, o ambiente é bom, a frequência bem comportada e civilizada, o espaço tem dignidade e gostei do pormenor das pias de pedra com as garrafas no centro. A variedade de pratos de bacalhau - desde os mais prosaicos como o à Braz, ao Zé do Pipo, àquele que provei, por exemplo - parece ser feita com confecção cuidada. Contudo, as porções mínimas obrigam realmente a que se comam entradas, 1º prato, segundo prato e sobremesa, sob pena de se sair muito aquém do minimo exigivel de satisfação. O que, consequentemente, atirará a refeição para alturas financeiras muito imerecidas, a meu ver. Por ausência, neste caso, dos detalhes anteriormente referidos.
As casas de banho são amplas, limpíssimas e o WC tem cabide.
O serviço tem uma nota entre o blasé sem cuidado e a negativa pura. Eu explico. Tudo é relativo ao preço que se paga. Mas aqui as migalhas ficaram por recolher, a atenção dada foi pouca, a simpatia fraca, o atendimento foi quase sempre de passagem, a rogo, e há nitida falta de um chefe de sala com autoridade e olhos para aqueles pequenos pormenores que o cachet da factura exige e justifica. Ah! E lá continua a malfadada mania da factura ter de ser solicitada expressamente, como se fosse um favor.
Conclusão: - Cozinha com pormenores de muito boa nota. Pode ir, se gosta mesmo muito de bacalhau confeccionado de forma criativa e superior, e se dispõe de boa carteira. À cautela, faça-o de forma apoiada em bastantes entradas, sopa, primeiro prato, etc.
...Mas, desculpem lá, arranjo-vos trinta sitios onde poderão comer grandes bacalhaus por um sexto do preço!..

post scriptum- O tecto é que nunca será tão magestoso!

Sala/Mobiliário ****; Porções *; Tempo de espera**; Confecção ****; Serviço **; WC *****; Estacionamento ***; Paisagem/Ambiente ***; Grau de satisfação geral ***
Preço $$$$$

terça-feira, 4 de março de 2008

Restaurante Mattos

R. Bulhão Pato, 2 - A
Lisboa

O Mattos é um restaurante não fumador, em rua com o nome de um histórico da gastronomia nacional, que conseguiu apesar da extensão marquisada, um ambiente de boa qualidade e excelente bem-estar, num espaço acolhedor, com o toque da madeira, incluindo lambris altos e traves no tecto, fornecendo aquele aspecto confortável, tradicional.
Ao sentarmo-nos, somos bombardeados por entradas sortidas, presunto cortado, alheiras, ovas, mexilhão, enfim, um nunca acabar de gulodices que atiram à fome no momento certo e é sempre difícil recusar.
A frequência atira para a classe média alta, já veremos porquê. Lamentavelmente, apesar dos guardanapos serem de pano, as toalhas são de papel. Um dado positivo – fornecem aventais a gosto aos comensais mais ventridotados, o que é sempre simpático e nos deixa menos aflitos com o perigo das nódoas.
Enquanto se espera a confecção, observei com atenção e dei-me ao trabalho de contar, em Carta de Vinhos excepcionalmente bem elaborada, doze verdes, dezoito Douros brancos e cento e três tintos (!); três Dão brancos e dezoito tintos; cinco Beiras tintos; um branco e dez tintos da zona Ribatejo / Oeste; onze Bairradas, dos quais um tinto; e vinte Alentejos brancos e nada menos de cento e onze tintos!!!
É uma garrafeira de se tirar o chapéu, das melhores e mais bem organizadas que tenho lido. Como a espera é imensa, houve tempo para tudo isso.
Pessoalmente provei as lulas da casa que vêm com um molho agradável embora um pouco forte, de pimentão vermelho e alho e acompanham com batata cozida ou arroz. Sinceramente achei que o arroz jogava melhor com a textura do molho; experimentei o esparregado, que, embora não estando mais gomoso como gosto, antes demasiado “pingão”, acabou por cumprir. Comigo estava quem pedisse peixe grelhado o qual teve ponto e cumpriu em qualidade.
Há ainda entre outras possibilidades um bacalhau à casa, posta alta, tipo lagareiro, robalo do mar, porco preto, posta mirandesa, vitela maronesa ( uma raridade de culto) bem como as picanhas e maminhas grelhadas. A boa apresentação e catadura das carnes começa na exposição visível desde a sala das peças respectivas, acondicionadas em arca de frio com vidro, como imagem de pré-consumo sempre simpática para os convivas desconfiados.
Serviço agradável e natural, com uma juventude sem tiques nem excessos formais, também aí no ponto certo.
Doces conventuais a preceito, incluindo os clássicos Abade de Priscos e Pão de rala, mas onde avulta um Premium da casa - o folhado com doce de abóbora, servido quente, de confecção simples mas que se revelou uma agradável surpresa.
Estacionamento difícil. Preço alto, sobretudo se se deixar tentar por tantos vinhos de preço proibitivo. O tal facto que, como já defendi anteriormente, não se aceita de todo num pais com a nossa qualidade e fecundidade produtiva em termos vinícolas.
Sabe bem ver um restaurante bem gerido, funcionando com simpatia e qualidade. Pena a espera demasiada, o preço alto e as toalhas de papel, que são coisas a melhorar. No resto o Mattos vai continuar a pontuar na restauração Lisboeta.

Sala/Mobiliário ****; Porções ***; Tempo de espera*; Confecção ***; Serviço ****; WC ***; Estacionamento *; Paisagem/Ambiente ***; Grau de satisfação geral ****
Preço $$$$

domingo, 2 de março de 2008

Restaurante o Alazão

R Gilberto Rola, 21
Lisboa

Temos muitas vezes a sensação de que naquele dia era melhor ficar em casa, não é? Pois bem, a convite amigo, tentamos noutro dia, o Restaurante o Alazão.
Descrevamos.
O estacionamento é impossível, até ao exaspero, na Rua Gilberto Rola, local in de Restauração em Alcântara, pejada de comedouros de maior ou menor importância e qualidade. Por fim, desistimos pomos um letreiro a dizer olhe desculpe mas estamos em tal parte e ao que parece é mesmo assim. Estamos de novo num filme do Vasco Santana e António Silva. A Lisboa velha do desenrasca.
Uma pintura de alazão de Serrão de Faria na entrada, podia ser um bom prenúncio para uma saída feliz. Não foi.
A sala está dividida em duas e se havia uma imensa cauda de espera quando telefonamos, mesmo assim, ainda esperamos mais quando chegamos. Eram quase onze da noite quando começamos a comer.
Mesas e guardanapos de pano, lambril de madeira alto.
Entradas de cogumelos recheados de chouriço, e um presunto de bom corte, ambos razoáveis.
O serviço estava nitidamente perturbado por dois bandos barulhentos ao extremo que gritavam a sua animosidade, o relato de futebol, as proezas amorosas e tauromáquicas, enfim uma babel de barulho e confusão.
Sem nos perguntar sequer branco ou tinto, fomos convencidos a optar por um tinto do Douro que não conhecia: Sedinhas – Casas das Torres. Mesmo processo (embirro solenemente que me induzam pedidos sem dar a carta, será defeito meu?...) para uns joaquinzinhos com arroz de tomate e esparregado e depois para um prato forte da casa que é, ao que parece, a picanha de vitela na pedra.
O vinho comportou-se razoavelmente como um Douro com a leveza própria da região, mas parece-me exagerada a classificação de grande escolha.
Os carapaus estavam fresquíssimos e muito bem fritos e a carne, que já de si demorou, veio trocada, já cozinhada, ao contrário do que tinha sido combinado, pelo que teve de esperar-se ainda mais, desta vez para que a pedra aquecesse.
Sequencia? Nenhuma. O barulho continuava a aumentar. Cada pedido tinha de repetir-se duas ou mais vezes ate se conseguir satisfação. Nem pai e filho na sala, nem seguramente o outro pessoal na cozinha conseguiam corresponder as solicitações de tamanhas turbas esfaimadas. Ao aceitarem grandes grupos como estes os donos da casa deviam fechar as portas, sinceramente. Doutro modo, ao ganharem de um lado, perdem noutro. Deviam pensar nisso.
A distância entre pratos foi aproximadamente de 40 minutos. O esparregado e o arroz já estavam frios quando finalmente apareceu a vitela. Pequenos pedaços muito tenros mas rotos e sem apresentação, do acém redondo, com sua gordura portanto. Não valia a pena reclamar. A tentativa de simpatia personalizada, cedo morria abafada na confusão e na urgência de acudir a toda a parte com pessoal nitidamente a menos. Pai e filho davam a noção duma estrutura amadora, demasiado familiar, para as necessidades da noite. Assim não.
Os molhos que acompanham esta vitela barrosã, muito tenra aliás, são os clássicos de mayonaise com mostarda, molho tártaro, etc. Mas a pedra, aquecida à pressa, estava lenta. E a salada - habitual, ao que dizem - esqueceu.
A encerrar, provei a mousse de manga que era razoável.
Parece haver também dourada assada no pão e grelhada mista de peixe na pedra. Parece ser sossegado noutros dias. Parece que normalmente se come bem, dizem. Parece que os géneros básicos são de boa qualidade. Parece-me que os acompanhamentos nem sempre se adequam ao que acompanham. Parece que não costuma ser tão barulhento. Parece que a conta no fim estava enganada com o dobro do vinho que beberamos. Parece que o descafeinado afinal era café. Parece que a factura continua a ter de ser pedida como um extra. Por fim, parece ser demasiado caro para a qualidade de satisfação proporcionada, que foi ínfima.
O meu lamento. Mas o atendimento, o ambiente, as trocas, as confusões, o esfriamento e a espera atiram este comentário necessariamente para o muito negativo.
Parece-me que vou pensar bem antes de voltar.

Resumo:
Sala/Mobiliário *; Porções ***; Tempo de espera *; Confecção **; Serviço *; WC **; Estacionamento *; Paisagem/Ambiente *; Grau de satisfação geral *
Preço $$$$

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Tasca do Zé da Bola

Pragal- Almada

Apetecia-me falar do Ze Bolas sem dizer ao certo onde fica. Resultava num segredo bem guardado, como pertence aos lugares de culto privado, onde não queremos intrusos que nos estorvem, nem lugares ocupados que nos empecem.
No entanto, enquanto não abordo - fica prometido - uma sequência de restaurantes de outro registo, recursos e palamenta, e tirando a alma de egoísmos, falarei hoje dessa humilde tasca.
O Zé da Bola, também conhecido por Zé Bolas é um ícone almadense. Oriundo do distante Cercal do Alentejo, depois de uns anos trabalhando nos estaleiros navais, estabeleceu-se no Pragal com uma tasca, parece mais que para fazer amigos do que sinceramente para gerir restaurante a sério ou criar riqueza.
São assim as tascas de Portugal no seu melhor e pior. Barulho e confusão. Frequência livre, por vezes heterogénea e complicada, mas normalmente uma espécie de bodo aos pobres, de ambiente alegre e rigorosamente democrático e popular, onde todos, sentados ao lado uns dos outros, ficam sem estigmas sociais de privilégio, riqueza ou favor.
O Zé grelha. Grelha tudo. Não dorme, o homem. Vai buscar o peixe ao Marl bem cedo, para apanhar a melhor escolha, e por vezes, eu sei, dorme o resto da noite na carrinha, escabeceando de sono e cansaço, para que ao almoço o peixinho esteja nos conformes para o cliente.
-Quais molhos? -Perguntou-me um dia, com os olhos cândidos de um viver simples e dedicado aos amigos.
-Tudo grelhadinho aqui ao ar livre! Acrescentou. Arriscando a multa, chova ou faça sol, diria eu.
Charcoal de carvão. Ocupação de espaço sagrada, numa curiosa carroça de chapa com rodas que até tem sistema de roldanas para afinar a altura da grelha à brasa e que recolhe a um chapéu alto em dias de chuva. Mas sempre lá, o churrasco do Bolas. Um dia poderá estar proibido neste surpreendente país de novas leis. O povo chama-lhe brasa. Brasa eterna. Sistema simples, sempre igual. Mas receita de saúde, dizem os entendidos.
Carapau, por vezes mais chicharro que carapau, dourada da treta é certo mas o que fazer, posta de boa corvina, lulas, chocos, salmão, peixe-espada negro do melhor, e as infalíveis sardinhas no tempo delas, perfumando o bairro. As batatas vêm cozidas com pele, lá de dentro da exígua cozinha, com a salada e a sopa. O comensal ainda tem direito a uma sobremesa e pela refeição completa paga, até ver, 8 euros, se tiver lugar.
Eu adoro aquela esplanada do Bolas. Passa o cigano que nos tenta vender um Breitling genuíno por 20 euros e o senhor da funerária, sempre simpático, que nos oferece isqueiros e calendários com frases alusivas à vida e à morte em tons sempre perlados de um humor que recolhe em mim alguma perplexidade.
Passa o artista, o policia, o professor, o reformado e o engenheiro, apressado no intervalo das obras, escolhendo entre a sandes sem graça e a refeição convencional. Ali, nada é convencional. Por vezes os próprios clientes ajudam no serviço, entre o trocativo e o desenrascado do outro Zé, do Rafa e da Lucina. Ali tenho a sensação de sermos todos amadores e solidários. Girissimo. Cada dia é uma nova performance, uma peça do Teatro-vida acontecendo. Todos juntos, todos iguais. Povo no seu melhor.
Aparcamento complicado. Simpatia e fumo à discrição. Pena aquela pequena esplanada não me caber em casa. O Zé Bolas cabe seguramente no meu coração.

Resumo:
Sala/Mobiliário *; Porções ****; Tempo de espera ****; Confecção ***; Serviço **; WC *; Estacionamento *; Paisagem/Ambiente *; Grau de satisfação geral ***
Preço $