Docas/Alcântara
Lisboa
O espaço de repastos à beira rio nas docas é, de certo modo, uma sala de visitas de Lisboa que hoje nos orgulha e que muito custou a conquistar. Há vinte anos era um espaço imundo e descuidado e esta geração não sabe quanto privilégio e charme disfruta só por uma coisa tão simples que Lisboa descurou tempo demais e entretanto, felizmente, aprendeu a tratar devidamente. A sua beleza de cidade de beira-mar.
Entre as muitas opções de restauração ali apresentadas, visitámos recentemente uma das melhores referências entre as escolhas possíveis. Quase ao fundo da fila o Restaurante Doca Peixe.
Esplanada serena numa noite de quase Verão, com amesendação cuidada e em pano, cadeiras de esplanada em verga. No primeiro andar cadeiras Thonet. Os marcadores vermelhos (!), a frequência de classe média-alta, avultando alguns turistas de bom ar. Pessoal de avental negro, simpático e quase sempre atento. Vista muito agradável para a marina.
Um primeiro contra verificado foi o barulho da Ponte, que a enigmática composição modernista de uma estrutura gafanhótica entretanto construida supostamente deveria combater. Dinheiro ao rio, é caso para se dizer. O comboio ao passar deixa-nos sem palavras. Mas adiante, que a noite maravilha apenas começava.
As entradas, com base em preparos variados sobre um mesmo tema de gambas e várias pastas amariscadas, estiveram soberbas. Destaque para as gambas com molho reduzido de Porto e couve roxa glaceada, um queijo de Azeitão de bom fabrico, uns ovos de recheio divinal, uns pimentinhos grelhados no sal com um preparo de marisco em cama de endívias acompanhados de casca de batata nova frita, mas sobretudo uma papaia recheada que me encheu as medidas na elegância da apresentação e no sabor.
Estando em grupo de quatro comensais encomendámos e foram testados: uma sopa do Presidente – consomé cremoso de mariscos, com curiosa apresentação de massa tenra opada fechando a boca da malga; o arroz de tomate – excelente - com linguadinhos fritos – fresquíssimos, acompanhados de tomatinhos “cherry”; um arroz de lagosta de boa confecção – ao qual eu retiraria as cascas da lagosta, mas muito equilibrado; um bife de atum com fatia de presunto – no ponto certo, nem mais nem menos um minuto que o devido (talvez merecendo mais cebola, a meu ver); e um cantaril escalado e grelhado, de muito boa consistência e catadura, com feijao verde e azeite de ervas preparado em molheira a parte.
Em tudo se adivinha uma confecção feita com gosto e criatividade. Acompanharam-nos um tinto alentejano José de Sousa, muito macio e elegante, e um branco duriense Murganheira levíssimo, que estiveram bem.
A carta de tintos, não sendo muito extensa abrange 15 alentejanos, 6 Douros, 1 Dão, 2Almeirins e 2 Estremaduras, fechando com 3 vinhos da zona de Setúbal. Nos brancos há 3 Verdes, 7 maduros do Alentejo, 3 do Dão, 5 de Setúbal e ainda rosés, sangrias e champanhe, para quem preferir. Lista escassa, mas com boas escolhas no essencial.
Enumero algumas sobremesas, apenas para que sofram um pouco mais. Mousse de frutos silvestres; encharcadas e trouxas caseiras; mousse de after-eight – o célebre chocolate com recheio inglês; tarte de limão merengada e um extraordinário crumbled de maçã, o melhor que comi até hoje na minha vida. Não precisava do gelado para nada, a não ser para compor o prato. Vinte valores!
Contras? Quase nada. O preço, claro. Também não gosto nem da cor nem do material dos marcadores e os Menus de cartolina merecem reforma, por favor. A qualidade da cozinha agradece. Além disso, o espaço merecia mais silêncio que o que a vizinha Ponte lhe proporciona, mas isso,claro...; e há algumas dificuldades de estacionamento próximo.
Relevo um óptimo ambiente, um local bonito, uma restauração séria, com uma confecção superior e uma Chefe competente e criativa, à altura de qualquer desafio.
Caro, mas muito bom. Assim, sim.
Sala/Mobiliário ****; Porções*****; Tempo de espera***; Confecção *****; Serviço ***; WC ****; Estacionamento **; Paisagem/Ambiente *****; Grau de satisfação geral *****
Preço $$$$$
quinta-feira, 3 de abril de 2008
quarta-feira, 19 de março de 2008
A Casa do Bacalhau
R Grilo 54
Lisboa
Na zona oriental da cidade desde há centenas de anos, se construiram mansões solarengas de fidalgos e suas cortes, mais ou menos numerosas, de criadagem, que desde o Paço por esse Tejo arriba foram subindo a montante (daí a palavra Ribatejo, já pensou?...) habitando espaços amplos, quase palácios, alguns de arcadas soberbas, pés direitos invulgares e sentido de espaço acima do comum. Em Chelas, Xabregas e Beato, além dos casos sociais problemáticos, há edificios cheios de história, abandonados, alguns de posse por definir, ao que sabemos; outros há, cuja propriedade já terá caído no Municipio, e que num país de Cultura e cuidado já estariam restaurados, mas que aqui continuam por reabilitar.
A Casa do Bacalhau está nessa zona há cerca de seis anos, onde aproveitou um espaço magnifico, que se diz ter sido das antigas cavalariças do palácio do Duque de Lafões. E tem, talvez, dos tectos mais bonitos da restauração lisboeta. Mas não me revejo nem no resto dos materiais, nem na linguagem estética optada para a sua arquitectura de interiores, com recurso a contraplacados baratos e linhas direitas, que nada conjugam com as arcadas em ogiva, magnificas e monumentais, descarnadas ao tijolo de origem e expostas em toda a sua beleza.
O estacionamento é razoavel, se não houver enchente, devido a um pequeno largo dianteiro. Mesas cobertas com pano e guardanapos também de pano. Cadeiras bonitas e muito confortáveis. Talheres regulares e copos que bem poderiam ser de verdadeiro cristal; veremos adiante porquê. Ausência de marcadores ou centro de mesa.
A ementa propõe sopas, um primeiro prato, um segundo prato e sobremesas. Tem razão, é mesmo preciso.
Na mesa, pão à fatia e azeitonas pisadas, ambos de bom registo. Agora manteiga de pacotinhos é que não...
Foi pedido, para tres comensais, um pratinho de entrada de pastéis de bacalhau (excelentes, vinte valores) e depois um bacalhau verde e uma dose de linguas de coentrada. Ao saber dividido o tal prato verde por duas senhoras presentes, o empregado deu um segundo e terceiro olhar de surda critica latente, que não tem de efectuar. Reprovável.
Vieram os pratos, mas há muito tempo já que teriam sido aquecidos, pois estavam quase frios.
Não nos foi explicado que o bacalhau verde era afinal bacalhau - muito pouco - embrulhado habilmente em couve - muita! - com pimentos vermelhos a enfeitar e tudo salteado em azeite. Agradável e simples confecção, mas com uma quantidade de bacalhau absolutamente ridicula.
As linguas de coentrada estavam divinais, com um molho apurado, no ponto, excelentes e vinham apenas acompanhadas de pequeníssimos triangulos de pão frito. Foi pedido um arroz que estava muito bom, mas chegou demasiado tardio.
A acompanhar, não havendo vinhos da casa, veio uma garrafa de Alabastro branco, vinho leve, aberto e alegre, que se desempenhou bem.
Experimentámos no final farófias de boa consistência e molho agradável.
Numa análise geral, o ambiente é bom, a frequência bem comportada e civilizada, o espaço tem dignidade e gostei do pormenor das pias de pedra com as garrafas no centro. A variedade de pratos de bacalhau - desde os mais prosaicos como o à Braz, ao Zé do Pipo, àquele que provei, por exemplo - parece ser feita com confecção cuidada. Contudo, as porções mínimas obrigam realmente a que se comam entradas, 1º prato, segundo prato e sobremesa, sob pena de se sair muito aquém do minimo exigivel de satisfação. O que, consequentemente, atirará a refeição para alturas financeiras muito imerecidas, a meu ver. Por ausência, neste caso, dos detalhes anteriormente referidos.
As casas de banho são amplas, limpíssimas e o WC tem cabide.
O serviço tem uma nota entre o blasé sem cuidado e a negativa pura. Eu explico. Tudo é relativo ao preço que se paga. Mas aqui as migalhas ficaram por recolher, a atenção dada foi pouca, a simpatia fraca, o atendimento foi quase sempre de passagem, a rogo, e há nitida falta de um chefe de sala com autoridade e olhos para aqueles pequenos pormenores que o cachet da factura exige e justifica. Ah! E lá continua a malfadada mania da factura ter de ser solicitada expressamente, como se fosse um favor.
Conclusão: - Cozinha com pormenores de muito boa nota. Pode ir, se gosta mesmo muito de bacalhau confeccionado de forma criativa e superior, e se dispõe de boa carteira. À cautela, faça-o de forma apoiada em bastantes entradas, sopa, primeiro prato, etc.
...Mas, desculpem lá, arranjo-vos trinta sitios onde poderão comer grandes bacalhaus por um sexto do preço!..
post scriptum- O tecto é que nunca será tão magestoso!
Sala/Mobiliário ****; Porções *; Tempo de espera**; Confecção ****; Serviço **; WC *****; Estacionamento ***; Paisagem/Ambiente ***; Grau de satisfação geral ***
Preço $$$$$
Lisboa
Na zona oriental da cidade desde há centenas de anos, se construiram mansões solarengas de fidalgos e suas cortes, mais ou menos numerosas, de criadagem, que desde o Paço por esse Tejo arriba foram subindo a montante (daí a palavra Ribatejo, já pensou?...) habitando espaços amplos, quase palácios, alguns de arcadas soberbas, pés direitos invulgares e sentido de espaço acima do comum. Em Chelas, Xabregas e Beato, além dos casos sociais problemáticos, há edificios cheios de história, abandonados, alguns de posse por definir, ao que sabemos; outros há, cuja propriedade já terá caído no Municipio, e que num país de Cultura e cuidado já estariam restaurados, mas que aqui continuam por reabilitar.
A Casa do Bacalhau está nessa zona há cerca de seis anos, onde aproveitou um espaço magnifico, que se diz ter sido das antigas cavalariças do palácio do Duque de Lafões. E tem, talvez, dos tectos mais bonitos da restauração lisboeta. Mas não me revejo nem no resto dos materiais, nem na linguagem estética optada para a sua arquitectura de interiores, com recurso a contraplacados baratos e linhas direitas, que nada conjugam com as arcadas em ogiva, magnificas e monumentais, descarnadas ao tijolo de origem e expostas em toda a sua beleza.
O estacionamento é razoavel, se não houver enchente, devido a um pequeno largo dianteiro. Mesas cobertas com pano e guardanapos também de pano. Cadeiras bonitas e muito confortáveis. Talheres regulares e copos que bem poderiam ser de verdadeiro cristal; veremos adiante porquê. Ausência de marcadores ou centro de mesa.
A ementa propõe sopas, um primeiro prato, um segundo prato e sobremesas. Tem razão, é mesmo preciso.
Na mesa, pão à fatia e azeitonas pisadas, ambos de bom registo. Agora manteiga de pacotinhos é que não...
Foi pedido, para tres comensais, um pratinho de entrada de pastéis de bacalhau (excelentes, vinte valores) e depois um bacalhau verde e uma dose de linguas de coentrada. Ao saber dividido o tal prato verde por duas senhoras presentes, o empregado deu um segundo e terceiro olhar de surda critica latente, que não tem de efectuar. Reprovável.
Vieram os pratos, mas há muito tempo já que teriam sido aquecidos, pois estavam quase frios.
Não nos foi explicado que o bacalhau verde era afinal bacalhau - muito pouco - embrulhado habilmente em couve - muita! - com pimentos vermelhos a enfeitar e tudo salteado em azeite. Agradável e simples confecção, mas com uma quantidade de bacalhau absolutamente ridicula.
As linguas de coentrada estavam divinais, com um molho apurado, no ponto, excelentes e vinham apenas acompanhadas de pequeníssimos triangulos de pão frito. Foi pedido um arroz que estava muito bom, mas chegou demasiado tardio.
A acompanhar, não havendo vinhos da casa, veio uma garrafa de Alabastro branco, vinho leve, aberto e alegre, que se desempenhou bem.
Experimentámos no final farófias de boa consistência e molho agradável.
Numa análise geral, o ambiente é bom, a frequência bem comportada e civilizada, o espaço tem dignidade e gostei do pormenor das pias de pedra com as garrafas no centro. A variedade de pratos de bacalhau - desde os mais prosaicos como o à Braz, ao Zé do Pipo, àquele que provei, por exemplo - parece ser feita com confecção cuidada. Contudo, as porções mínimas obrigam realmente a que se comam entradas, 1º prato, segundo prato e sobremesa, sob pena de se sair muito aquém do minimo exigivel de satisfação. O que, consequentemente, atirará a refeição para alturas financeiras muito imerecidas, a meu ver. Por ausência, neste caso, dos detalhes anteriormente referidos.
As casas de banho são amplas, limpíssimas e o WC tem cabide.
O serviço tem uma nota entre o blasé sem cuidado e a negativa pura. Eu explico. Tudo é relativo ao preço que se paga. Mas aqui as migalhas ficaram por recolher, a atenção dada foi pouca, a simpatia fraca, o atendimento foi quase sempre de passagem, a rogo, e há nitida falta de um chefe de sala com autoridade e olhos para aqueles pequenos pormenores que o cachet da factura exige e justifica. Ah! E lá continua a malfadada mania da factura ter de ser solicitada expressamente, como se fosse um favor.
Conclusão: - Cozinha com pormenores de muito boa nota. Pode ir, se gosta mesmo muito de bacalhau confeccionado de forma criativa e superior, e se dispõe de boa carteira. À cautela, faça-o de forma apoiada em bastantes entradas, sopa, primeiro prato, etc.
...Mas, desculpem lá, arranjo-vos trinta sitios onde poderão comer grandes bacalhaus por um sexto do preço!..
post scriptum- O tecto é que nunca será tão magestoso!
Sala/Mobiliário ****; Porções *; Tempo de espera**; Confecção ****; Serviço **; WC *****; Estacionamento ***; Paisagem/Ambiente ***; Grau de satisfação geral ***
Preço $$$$$
Marcadores:
critica culinaria,
gastronomia,
restaurantes
terça-feira, 4 de março de 2008
Restaurante Mattos
R. Bulhão Pato, 2 - A
Lisboa
O Mattos é um restaurante não fumador, em rua com o nome de um histórico da gastronomia nacional, que conseguiu apesar da extensão marquisada, um ambiente de boa qualidade e excelente bem-estar, num espaço acolhedor, com o toque da madeira, incluindo lambris altos e traves no tecto, fornecendo aquele aspecto confortável, tradicional.
Ao sentarmo-nos, somos bombardeados por entradas sortidas, presunto cortado, alheiras, ovas, mexilhão, enfim, um nunca acabar de gulodices que atiram à fome no momento certo e é sempre difícil recusar.
A frequência atira para a classe média alta, já veremos porquê. Lamentavelmente, apesar dos guardanapos serem de pano, as toalhas são de papel. Um dado positivo – fornecem aventais a gosto aos comensais mais ventridotados, o que é sempre simpático e nos deixa menos aflitos com o perigo das nódoas.
Enquanto se espera a confecção, observei com atenção e dei-me ao trabalho de contar, em Carta de Vinhos excepcionalmente bem elaborada, doze verdes, dezoito Douros brancos e cento e três tintos (!); três Dão brancos e dezoito tintos; cinco Beiras tintos; um branco e dez tintos da zona Ribatejo / Oeste; onze Bairradas, dos quais um tinto; e vinte Alentejos brancos e nada menos de cento e onze tintos!!!
É uma garrafeira de se tirar o chapéu, das melhores e mais bem organizadas que tenho lido. Como a espera é imensa, houve tempo para tudo isso.
Pessoalmente provei as lulas da casa que vêm com um molho agradável embora um pouco forte, de pimentão vermelho e alho e acompanham com batata cozida ou arroz. Sinceramente achei que o arroz jogava melhor com a textura do molho; experimentei o esparregado, que, embora não estando mais gomoso como gosto, antes demasiado “pingão”, acabou por cumprir. Comigo estava quem pedisse peixe grelhado o qual teve ponto e cumpriu em qualidade.
Há ainda entre outras possibilidades um bacalhau à casa, posta alta, tipo lagareiro, robalo do mar, porco preto, posta mirandesa, vitela maronesa ( uma raridade de culto) bem como as picanhas e maminhas grelhadas. A boa apresentação e catadura das carnes começa na exposição visível desde a sala das peças respectivas, acondicionadas em arca de frio com vidro, como imagem de pré-consumo sempre simpática para os convivas desconfiados.
Serviço agradável e natural, com uma juventude sem tiques nem excessos formais, também aí no ponto certo.
Doces conventuais a preceito, incluindo os clássicos Abade de Priscos e Pão de rala, mas onde avulta um Premium da casa - o folhado com doce de abóbora, servido quente, de confecção simples mas que se revelou uma agradável surpresa.
Estacionamento difícil. Preço alto, sobretudo se se deixar tentar por tantos vinhos de preço proibitivo. O tal facto que, como já defendi anteriormente, não se aceita de todo num pais com a nossa qualidade e fecundidade produtiva em termos vinícolas.
Sabe bem ver um restaurante bem gerido, funcionando com simpatia e qualidade. Pena a espera demasiada, o preço alto e as toalhas de papel, que são coisas a melhorar. No resto o Mattos vai continuar a pontuar na restauração Lisboeta.
Sala/Mobiliário ****; Porções ***; Tempo de espera*; Confecção ***; Serviço ****; WC ***; Estacionamento *; Paisagem/Ambiente ***; Grau de satisfação geral ****
Preço $$$$
Lisboa
O Mattos é um restaurante não fumador, em rua com o nome de um histórico da gastronomia nacional, que conseguiu apesar da extensão marquisada, um ambiente de boa qualidade e excelente bem-estar, num espaço acolhedor, com o toque da madeira, incluindo lambris altos e traves no tecto, fornecendo aquele aspecto confortável, tradicional.
Ao sentarmo-nos, somos bombardeados por entradas sortidas, presunto cortado, alheiras, ovas, mexilhão, enfim, um nunca acabar de gulodices que atiram à fome no momento certo e é sempre difícil recusar.
A frequência atira para a classe média alta, já veremos porquê. Lamentavelmente, apesar dos guardanapos serem de pano, as toalhas são de papel. Um dado positivo – fornecem aventais a gosto aos comensais mais ventridotados, o que é sempre simpático e nos deixa menos aflitos com o perigo das nódoas.
Enquanto se espera a confecção, observei com atenção e dei-me ao trabalho de contar, em Carta de Vinhos excepcionalmente bem elaborada, doze verdes, dezoito Douros brancos e cento e três tintos (!); três Dão brancos e dezoito tintos; cinco Beiras tintos; um branco e dez tintos da zona Ribatejo / Oeste; onze Bairradas, dos quais um tinto; e vinte Alentejos brancos e nada menos de cento e onze tintos!!!
É uma garrafeira de se tirar o chapéu, das melhores e mais bem organizadas que tenho lido. Como a espera é imensa, houve tempo para tudo isso.
Pessoalmente provei as lulas da casa que vêm com um molho agradável embora um pouco forte, de pimentão vermelho e alho e acompanham com batata cozida ou arroz. Sinceramente achei que o arroz jogava melhor com a textura do molho; experimentei o esparregado, que, embora não estando mais gomoso como gosto, antes demasiado “pingão”, acabou por cumprir. Comigo estava quem pedisse peixe grelhado o qual teve ponto e cumpriu em qualidade.
Há ainda entre outras possibilidades um bacalhau à casa, posta alta, tipo lagareiro, robalo do mar, porco preto, posta mirandesa, vitela maronesa ( uma raridade de culto) bem como as picanhas e maminhas grelhadas. A boa apresentação e catadura das carnes começa na exposição visível desde a sala das peças respectivas, acondicionadas em arca de frio com vidro, como imagem de pré-consumo sempre simpática para os convivas desconfiados.
Serviço agradável e natural, com uma juventude sem tiques nem excessos formais, também aí no ponto certo.
Doces conventuais a preceito, incluindo os clássicos Abade de Priscos e Pão de rala, mas onde avulta um Premium da casa - o folhado com doce de abóbora, servido quente, de confecção simples mas que se revelou uma agradável surpresa.
Estacionamento difícil. Preço alto, sobretudo se se deixar tentar por tantos vinhos de preço proibitivo. O tal facto que, como já defendi anteriormente, não se aceita de todo num pais com a nossa qualidade e fecundidade produtiva em termos vinícolas.
Sabe bem ver um restaurante bem gerido, funcionando com simpatia e qualidade. Pena a espera demasiada, o preço alto e as toalhas de papel, que são coisas a melhorar. No resto o Mattos vai continuar a pontuar na restauração Lisboeta.
Sala/Mobiliário ****; Porções ***; Tempo de espera*; Confecção ***; Serviço ****; WC ***; Estacionamento *; Paisagem/Ambiente ***; Grau de satisfação geral ****
Preço $$$$
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domingo, 2 de março de 2008
Restaurante o Alazão
R Gilberto Rola, 21
Lisboa
Temos muitas vezes a sensação de que naquele dia era melhor ficar em casa, não é? Pois bem, a convite amigo, tentamos noutro dia, o Restaurante o Alazão.
Descrevamos.
O estacionamento é impossível, até ao exaspero, na Rua Gilberto Rola, local in de Restauração em Alcântara, pejada de comedouros de maior ou menor importância e qualidade. Por fim, desistimos pomos um letreiro a dizer olhe desculpe mas estamos em tal parte e ao que parece é mesmo assim. Estamos de novo num filme do Vasco Santana e António Silva. A Lisboa velha do desenrasca.
Uma pintura de alazão de Serrão de Faria na entrada, podia ser um bom prenúncio para uma saída feliz. Não foi.
A sala está dividida em duas e se havia uma imensa cauda de espera quando telefonamos, mesmo assim, ainda esperamos mais quando chegamos. Eram quase onze da noite quando começamos a comer.
Mesas e guardanapos de pano, lambril de madeira alto.
Entradas de cogumelos recheados de chouriço, e um presunto de bom corte, ambos razoáveis.
O serviço estava nitidamente perturbado por dois bandos barulhentos ao extremo que gritavam a sua animosidade, o relato de futebol, as proezas amorosas e tauromáquicas, enfim uma babel de barulho e confusão.
Sem nos perguntar sequer branco ou tinto, fomos convencidos a optar por um tinto do Douro que não conhecia: Sedinhas – Casas das Torres. Mesmo processo (embirro solenemente que me induzam pedidos sem dar a carta, será defeito meu?...) para uns joaquinzinhos com arroz de tomate e esparregado e depois para um prato forte da casa que é, ao que parece, a picanha de vitela na pedra.
O vinho comportou-se razoavelmente como um Douro com a leveza própria da região, mas parece-me exagerada a classificação de grande escolha.
Os carapaus estavam fresquíssimos e muito bem fritos e a carne, que já de si demorou, veio trocada, já cozinhada, ao contrário do que tinha sido combinado, pelo que teve de esperar-se ainda mais, desta vez para que a pedra aquecesse.
Sequencia? Nenhuma. O barulho continuava a aumentar. Cada pedido tinha de repetir-se duas ou mais vezes ate se conseguir satisfação. Nem pai e filho na sala, nem seguramente o outro pessoal na cozinha conseguiam corresponder as solicitações de tamanhas turbas esfaimadas. Ao aceitarem grandes grupos como estes os donos da casa deviam fechar as portas, sinceramente. Doutro modo, ao ganharem de um lado, perdem noutro. Deviam pensar nisso.
A distância entre pratos foi aproximadamente de 40 minutos. O esparregado e o arroz já estavam frios quando finalmente apareceu a vitela. Pequenos pedaços muito tenros mas rotos e sem apresentação, do acém redondo, com sua gordura portanto. Não valia a pena reclamar. A tentativa de simpatia personalizada, cedo morria abafada na confusão e na urgência de acudir a toda a parte com pessoal nitidamente a menos. Pai e filho davam a noção duma estrutura amadora, demasiado familiar, para as necessidades da noite. Assim não.
Os molhos que acompanham esta vitela barrosã, muito tenra aliás, são os clássicos de mayonaise com mostarda, molho tártaro, etc. Mas a pedra, aquecida à pressa, estava lenta. E a salada - habitual, ao que dizem - esqueceu.
A encerrar, provei a mousse de manga que era razoável.
Parece haver também dourada assada no pão e grelhada mista de peixe na pedra. Parece ser sossegado noutros dias. Parece que normalmente se come bem, dizem. Parece que os géneros básicos são de boa qualidade. Parece-me que os acompanhamentos nem sempre se adequam ao que acompanham. Parece que não costuma ser tão barulhento. Parece que a conta no fim estava enganada com o dobro do vinho que beberamos. Parece que o descafeinado afinal era café. Parece que a factura continua a ter de ser pedida como um extra. Por fim, parece ser demasiado caro para a qualidade de satisfação proporcionada, que foi ínfima.
O meu lamento. Mas o atendimento, o ambiente, as trocas, as confusões, o esfriamento e a espera atiram este comentário necessariamente para o muito negativo.
Parece-me que vou pensar bem antes de voltar.
Resumo:
Sala/Mobiliário *; Porções ***; Tempo de espera *; Confecção **; Serviço *; WC **; Estacionamento *; Paisagem/Ambiente *; Grau de satisfação geral *
Preço $$$$
Lisboa
Temos muitas vezes a sensação de que naquele dia era melhor ficar em casa, não é? Pois bem, a convite amigo, tentamos noutro dia, o Restaurante o Alazão.
Descrevamos.
O estacionamento é impossível, até ao exaspero, na Rua Gilberto Rola, local in de Restauração em Alcântara, pejada de comedouros de maior ou menor importância e qualidade. Por fim, desistimos pomos um letreiro a dizer olhe desculpe mas estamos em tal parte e ao que parece é mesmo assim. Estamos de novo num filme do Vasco Santana e António Silva. A Lisboa velha do desenrasca.
Uma pintura de alazão de Serrão de Faria na entrada, podia ser um bom prenúncio para uma saída feliz. Não foi.
A sala está dividida em duas e se havia uma imensa cauda de espera quando telefonamos, mesmo assim, ainda esperamos mais quando chegamos. Eram quase onze da noite quando começamos a comer.
Mesas e guardanapos de pano, lambril de madeira alto.
Entradas de cogumelos recheados de chouriço, e um presunto de bom corte, ambos razoáveis.
O serviço estava nitidamente perturbado por dois bandos barulhentos ao extremo que gritavam a sua animosidade, o relato de futebol, as proezas amorosas e tauromáquicas, enfim uma babel de barulho e confusão.
Sem nos perguntar sequer branco ou tinto, fomos convencidos a optar por um tinto do Douro que não conhecia: Sedinhas – Casas das Torres. Mesmo processo (embirro solenemente que me induzam pedidos sem dar a carta, será defeito meu?...) para uns joaquinzinhos com arroz de tomate e esparregado e depois para um prato forte da casa que é, ao que parece, a picanha de vitela na pedra.
O vinho comportou-se razoavelmente como um Douro com a leveza própria da região, mas parece-me exagerada a classificação de grande escolha.
Os carapaus estavam fresquíssimos e muito bem fritos e a carne, que já de si demorou, veio trocada, já cozinhada, ao contrário do que tinha sido combinado, pelo que teve de esperar-se ainda mais, desta vez para que a pedra aquecesse.
Sequencia? Nenhuma. O barulho continuava a aumentar. Cada pedido tinha de repetir-se duas ou mais vezes ate se conseguir satisfação. Nem pai e filho na sala, nem seguramente o outro pessoal na cozinha conseguiam corresponder as solicitações de tamanhas turbas esfaimadas. Ao aceitarem grandes grupos como estes os donos da casa deviam fechar as portas, sinceramente. Doutro modo, ao ganharem de um lado, perdem noutro. Deviam pensar nisso.
A distância entre pratos foi aproximadamente de 40 minutos. O esparregado e o arroz já estavam frios quando finalmente apareceu a vitela. Pequenos pedaços muito tenros mas rotos e sem apresentação, do acém redondo, com sua gordura portanto. Não valia a pena reclamar. A tentativa de simpatia personalizada, cedo morria abafada na confusão e na urgência de acudir a toda a parte com pessoal nitidamente a menos. Pai e filho davam a noção duma estrutura amadora, demasiado familiar, para as necessidades da noite. Assim não.
Os molhos que acompanham esta vitela barrosã, muito tenra aliás, são os clássicos de mayonaise com mostarda, molho tártaro, etc. Mas a pedra, aquecida à pressa, estava lenta. E a salada - habitual, ao que dizem - esqueceu.
A encerrar, provei a mousse de manga que era razoável.
Parece haver também dourada assada no pão e grelhada mista de peixe na pedra. Parece ser sossegado noutros dias. Parece que normalmente se come bem, dizem. Parece que os géneros básicos são de boa qualidade. Parece-me que os acompanhamentos nem sempre se adequam ao que acompanham. Parece que não costuma ser tão barulhento. Parece que a conta no fim estava enganada com o dobro do vinho que beberamos. Parece que o descafeinado afinal era café. Parece que a factura continua a ter de ser pedida como um extra. Por fim, parece ser demasiado caro para a qualidade de satisfação proporcionada, que foi ínfima.
O meu lamento. Mas o atendimento, o ambiente, as trocas, as confusões, o esfriamento e a espera atiram este comentário necessariamente para o muito negativo.
Parece-me que vou pensar bem antes de voltar.
Resumo:
Sala/Mobiliário *; Porções ***; Tempo de espera *; Confecção **; Serviço *; WC **; Estacionamento *; Paisagem/Ambiente *; Grau de satisfação geral *
Preço $$$$
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Tasca do Zé da Bola
Pragal- Almada
Apetecia-me falar do Ze Bolas sem dizer ao certo onde fica. Resultava num segredo bem guardado, como pertence aos lugares de culto privado, onde não queremos intrusos que nos estorvem, nem lugares ocupados que nos empecem.
No entanto, enquanto não abordo - fica prometido - uma sequência de restaurantes de outro registo, recursos e palamenta, e tirando a alma de egoísmos, falarei hoje dessa humilde tasca.
O Zé da Bola, também conhecido por Zé Bolas é um ícone almadense. Oriundo do distante Cercal do Alentejo, depois de uns anos trabalhando nos estaleiros navais, estabeleceu-se no Pragal com uma tasca, parece mais que para fazer amigos do que sinceramente para gerir restaurante a sério ou criar riqueza.
São assim as tascas de Portugal no seu melhor e pior. Barulho e confusão. Frequência livre, por vezes heterogénea e complicada, mas normalmente uma espécie de bodo aos pobres, de ambiente alegre e rigorosamente democrático e popular, onde todos, sentados ao lado uns dos outros, ficam sem estigmas sociais de privilégio, riqueza ou favor.
O Zé grelha. Grelha tudo. Não dorme, o homem. Vai buscar o peixe ao Marl bem cedo, para apanhar a melhor escolha, e por vezes, eu sei, dorme o resto da noite na carrinha, escabeceando de sono e cansaço, para que ao almoço o peixinho esteja nos conformes para o cliente.
-Quais molhos? -Perguntou-me um dia, com os olhos cândidos de um viver simples e dedicado aos amigos.
-Tudo grelhadinho aqui ao ar livre! Acrescentou. Arriscando a multa, chova ou faça sol, diria eu.
Charcoal de carvão. Ocupação de espaço sagrada, numa curiosa carroça de chapa com rodas que até tem sistema de roldanas para afinar a altura da grelha à brasa e que recolhe a um chapéu alto em dias de chuva. Mas sempre lá, o churrasco do Bolas. Um dia poderá estar proibido neste surpreendente país de novas leis. O povo chama-lhe brasa. Brasa eterna. Sistema simples, sempre igual. Mas receita de saúde, dizem os entendidos.
Carapau, por vezes mais chicharro que carapau, dourada da treta é certo mas o que fazer, posta de boa corvina, lulas, chocos, salmão, peixe-espada negro do melhor, e as infalíveis sardinhas no tempo delas, perfumando o bairro. As batatas vêm cozidas com pele, lá de dentro da exígua cozinha, com a salada e a sopa. O comensal ainda tem direito a uma sobremesa e pela refeição completa paga, até ver, 8 euros, se tiver lugar.
Eu adoro aquela esplanada do Bolas. Passa o cigano que nos tenta vender um Breitling genuíno por 20 euros e o senhor da funerária, sempre simpático, que nos oferece isqueiros e calendários com frases alusivas à vida e à morte em tons sempre perlados de um humor que recolhe em mim alguma perplexidade.
Passa o artista, o policia, o professor, o reformado e o engenheiro, apressado no intervalo das obras, escolhendo entre a sandes sem graça e a refeição convencional. Ali, nada é convencional. Por vezes os próprios clientes ajudam no serviço, entre o trocativo e o desenrascado do outro Zé, do Rafa e da Lucina. Ali tenho a sensação de sermos todos amadores e solidários. Girissimo. Cada dia é uma nova performance, uma peça do Teatro-vida acontecendo. Todos juntos, todos iguais. Povo no seu melhor.
Aparcamento complicado. Simpatia e fumo à discrição. Pena aquela pequena esplanada não me caber em casa. O Zé Bolas cabe seguramente no meu coração.
Resumo:
Sala/Mobiliário *; Porções ****; Tempo de espera ****; Confecção ***; Serviço **; WC *; Estacionamento *; Paisagem/Ambiente *; Grau de satisfação geral ***
Preço $
Apetecia-me falar do Ze Bolas sem dizer ao certo onde fica. Resultava num segredo bem guardado, como pertence aos lugares de culto privado, onde não queremos intrusos que nos estorvem, nem lugares ocupados que nos empecem.
No entanto, enquanto não abordo - fica prometido - uma sequência de restaurantes de outro registo, recursos e palamenta, e tirando a alma de egoísmos, falarei hoje dessa humilde tasca.
O Zé da Bola, também conhecido por Zé Bolas é um ícone almadense. Oriundo do distante Cercal do Alentejo, depois de uns anos trabalhando nos estaleiros navais, estabeleceu-se no Pragal com uma tasca, parece mais que para fazer amigos do que sinceramente para gerir restaurante a sério ou criar riqueza.
São assim as tascas de Portugal no seu melhor e pior. Barulho e confusão. Frequência livre, por vezes heterogénea e complicada, mas normalmente uma espécie de bodo aos pobres, de ambiente alegre e rigorosamente democrático e popular, onde todos, sentados ao lado uns dos outros, ficam sem estigmas sociais de privilégio, riqueza ou favor.
O Zé grelha. Grelha tudo. Não dorme, o homem. Vai buscar o peixe ao Marl bem cedo, para apanhar a melhor escolha, e por vezes, eu sei, dorme o resto da noite na carrinha, escabeceando de sono e cansaço, para que ao almoço o peixinho esteja nos conformes para o cliente.
-Quais molhos? -Perguntou-me um dia, com os olhos cândidos de um viver simples e dedicado aos amigos.
-Tudo grelhadinho aqui ao ar livre! Acrescentou. Arriscando a multa, chova ou faça sol, diria eu.
Charcoal de carvão. Ocupação de espaço sagrada, numa curiosa carroça de chapa com rodas que até tem sistema de roldanas para afinar a altura da grelha à brasa e que recolhe a um chapéu alto em dias de chuva. Mas sempre lá, o churrasco do Bolas. Um dia poderá estar proibido neste surpreendente país de novas leis. O povo chama-lhe brasa. Brasa eterna. Sistema simples, sempre igual. Mas receita de saúde, dizem os entendidos.
Carapau, por vezes mais chicharro que carapau, dourada da treta é certo mas o que fazer, posta de boa corvina, lulas, chocos, salmão, peixe-espada negro do melhor, e as infalíveis sardinhas no tempo delas, perfumando o bairro. As batatas vêm cozidas com pele, lá de dentro da exígua cozinha, com a salada e a sopa. O comensal ainda tem direito a uma sobremesa e pela refeição completa paga, até ver, 8 euros, se tiver lugar.
Eu adoro aquela esplanada do Bolas. Passa o cigano que nos tenta vender um Breitling genuíno por 20 euros e o senhor da funerária, sempre simpático, que nos oferece isqueiros e calendários com frases alusivas à vida e à morte em tons sempre perlados de um humor que recolhe em mim alguma perplexidade.
Passa o artista, o policia, o professor, o reformado e o engenheiro, apressado no intervalo das obras, escolhendo entre a sandes sem graça e a refeição convencional. Ali, nada é convencional. Por vezes os próprios clientes ajudam no serviço, entre o trocativo e o desenrascado do outro Zé, do Rafa e da Lucina. Ali tenho a sensação de sermos todos amadores e solidários. Girissimo. Cada dia é uma nova performance, uma peça do Teatro-vida acontecendo. Todos juntos, todos iguais. Povo no seu melhor.
Aparcamento complicado. Simpatia e fumo à discrição. Pena aquela pequena esplanada não me caber em casa. O Zé Bolas cabe seguramente no meu coração.
Resumo:
Sala/Mobiliário *; Porções ****; Tempo de espera ****; Confecção ***; Serviço **; WC *; Estacionamento *; Paisagem/Ambiente *; Grau de satisfação geral ***
Preço $
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Restaurante Porto de Abrigo
R. dos Remolares,18
Lisboa
Numa outra geração e noutra encarnação, eu frequentei muito assiduamente este Porto de Abrigo. Uma noite destas, resolvi voltar a franquear a porta dessa velha referência de minha vida passada e de um certo viver marítimo e portuário lisboeta. Continua a ser o Cais do Sodré no seu melhor, por onde passa e pastoreia a mais activa e influente import-export business people. Local de transitários, armadores e despachantes, onde tantos negócios e embarques são decididos, sobretudo ao almoço.
Talvez ali pela primeira vez, se tenha decidido numa qualquer mesa, importar roupa da China, ainda antes das lojas de trezentos; talvez dali houvessem raiz tantas modas que inundaram o Pais, desde sapatos a bonecos. Decerto, um dia, se aquelas paredes falassem, a história do que se consumiu e foi moda neste país pudesse fazer-se com outro rigor e esclarecimento. E dos fantabulosos lucros envolvidos também.
Mas entremos. O ambiente é naval, como se de uma messe de um navio se tratasse, com lambril subido de madeira alta e cadeiras de mogno rijas e maciças. As mesas mereciam toalhas de pano sem cobertura de papel. Se pedir guardanapos de pano, contudo, trazem-lhos sem hesitação.
Comi umas gambas em caril de boa fábrica (há milhentas receitas de caril, como se sabe, que podem levar mais ou menos cravo, gengibre, piri-piri, açafrão, etc.) e um pato com molho de azeitonas e esparregado. Estiveram ambos bem. O caril - encorpado e bravo, sem exagero de gambas, mas em quantidade aceitável; e o pato - bem-disposto e caseiro, receita antiga que não perdeu a mão. Reencontrei o gosto e a memória, o que é sempre reconfortante.
Há ainda, entre muitas outras coisas, um polvo que recomendo, uma vieira de fabrico caseiro muito agradável e um outro pato mais normal, digamos assim. Este pato que degustei apresenta-se completo. Isto é, disfarçado com o molho de azeitonas, o bicho incluía os miúdos e as peças vinham com a saborosa pele. O pato no seu esplendor. Porque os arrozes de pato que habitualmente se comem, infelizmente apenas incluem a fibrosa zona do peito, onde justamente o palmípede menos saboroso é. E recorre-se depois ao chouriço para dar a alegria, o colorido e a gordura que, afinal, a simples pele do animal poderia com vantagens propiciar. Aqui está, portanto, uma receita antiga da mais velha culinária regional com todas as regras do sabor autêntico respeitadas.
Era tarde e as sobremesas já estavam muito esgotadas do almoço. Destaco as peras bêbedas, os pudins, brigadeiros, barrigas de freira, mousse de manga, etc
Carta de vinhos escassa mas funcional. Corrijam por favor o Muralhas de Monção que está mal escrito com s, pois tanto o produto, como a simpática vila minhota merecem essa correcção.
Estacionamento entre o muito difícil e o impossível. Fecha aos domingos.
Visita fortemente recomendada.O Porto de Abrigo continua a ser um porto de abrigo.
Resumo:
Sala/Mobiliário ***; Porções ***; Tempo de espera ***; Confecção ****; Serviço ***; WC **; Estacionamento *; Paisagem/Ambiente **; Grau de satisfação geral ****
Preço $$$
Lisboa
Numa outra geração e noutra encarnação, eu frequentei muito assiduamente este Porto de Abrigo. Uma noite destas, resolvi voltar a franquear a porta dessa velha referência de minha vida passada e de um certo viver marítimo e portuário lisboeta. Continua a ser o Cais do Sodré no seu melhor, por onde passa e pastoreia a mais activa e influente import-export business people. Local de transitários, armadores e despachantes, onde tantos negócios e embarques são decididos, sobretudo ao almoço.
Talvez ali pela primeira vez, se tenha decidido numa qualquer mesa, importar roupa da China, ainda antes das lojas de trezentos; talvez dali houvessem raiz tantas modas que inundaram o Pais, desde sapatos a bonecos. Decerto, um dia, se aquelas paredes falassem, a história do que se consumiu e foi moda neste país pudesse fazer-se com outro rigor e esclarecimento. E dos fantabulosos lucros envolvidos também.
Mas entremos. O ambiente é naval, como se de uma messe de um navio se tratasse, com lambril subido de madeira alta e cadeiras de mogno rijas e maciças. As mesas mereciam toalhas de pano sem cobertura de papel. Se pedir guardanapos de pano, contudo, trazem-lhos sem hesitação.
Comi umas gambas em caril de boa fábrica (há milhentas receitas de caril, como se sabe, que podem levar mais ou menos cravo, gengibre, piri-piri, açafrão, etc.) e um pato com molho de azeitonas e esparregado. Estiveram ambos bem. O caril - encorpado e bravo, sem exagero de gambas, mas em quantidade aceitável; e o pato - bem-disposto e caseiro, receita antiga que não perdeu a mão. Reencontrei o gosto e a memória, o que é sempre reconfortante.
Há ainda, entre muitas outras coisas, um polvo que recomendo, uma vieira de fabrico caseiro muito agradável e um outro pato mais normal, digamos assim. Este pato que degustei apresenta-se completo. Isto é, disfarçado com o molho de azeitonas, o bicho incluía os miúdos e as peças vinham com a saborosa pele. O pato no seu esplendor. Porque os arrozes de pato que habitualmente se comem, infelizmente apenas incluem a fibrosa zona do peito, onde justamente o palmípede menos saboroso é. E recorre-se depois ao chouriço para dar a alegria, o colorido e a gordura que, afinal, a simples pele do animal poderia com vantagens propiciar. Aqui está, portanto, uma receita antiga da mais velha culinária regional com todas as regras do sabor autêntico respeitadas.
Era tarde e as sobremesas já estavam muito esgotadas do almoço. Destaco as peras bêbedas, os pudins, brigadeiros, barrigas de freira, mousse de manga, etc
Carta de vinhos escassa mas funcional. Corrijam por favor o Muralhas de Monção que está mal escrito com s, pois tanto o produto, como a simpática vila minhota merecem essa correcção.
Estacionamento entre o muito difícil e o impossível. Fecha aos domingos.
Visita fortemente recomendada.O Porto de Abrigo continua a ser um porto de abrigo.
Resumo:
Sala/Mobiliário ***; Porções ***; Tempo de espera ***; Confecção ****; Serviço ***; WC **; Estacionamento *; Paisagem/Ambiente **; Grau de satisfação geral ****
Preço $$$
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critica culinaria,
gastronomia,
restaurantes
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Restaurante a Calçada
Restaurante A Calçada
Tel. 213632678
Calçada da Ajuda 107/109
Lisboa
A entrada é banal, sem grande luxo, nem nenhum ar especial de restaurante de referência. A meio da Calçada da Ajuda, ao lado esquerdo de quem sobe, está este espaço simpático para cerca de 60 comensais, digo eu, não sei, mas à volta disso.
Ao chegarmos, somos prendados com pratinhos de pimentos aveludados preparados com molho de azeite e alho, mexilhões de gaspacho, orelha de porco, saladinha de polvo, enfim, mimos simpáticos e de agradável confecção. Há que recusar alguns pratos, senão a refeição acabaria por ali.
As mesas são simpáticas, as cadeiras estilo Thonet, tão de meu agrado, que envolvem e aconchegam sem oprimir, e o serviço inclui toalhas e guardanapos de pano. Bom ambiente e boa frequência devido a proximidade entre outros, do Ministério da Cultura. Aliás, é casa que a Ministra Pires frequenta, facto que já presenciei várias vezes, no que quer que isso abone de seu gosto ou demanda de sabores. Controversa na acção e no estilo, mas na mesa, ao que parece, sabe escolher …E a gastronomia também é cultura… ou não?
Na ementa do chefe Laureano é frequente encontrar a chamada comida típica portuguesa. Temos as favas com entrecosto, alheira de caça, joaquinzinhos com arroz, sopa de cação, pataniscas, caril de frango caseiro, lulas recheadas, peixe e carnes várias para grelhar. Porco preto e caça são frequentes no menu. Feijoada à brasileira também, a qual, embora não seja produto nacional, está já tão divulgada entre nós, que começa a pertencer aos nossos cardápios sem surpresa. Um certo perfume alentejano nos sabores e na decoração, decerto propagado e transmitido pela proprietária, Dª Maria Helena, uma simpática e atenta anfitriã. Alentejana do Baixo Alentejo, sente-se no coração.
Há uma boa lista de vinhos, forte sobretudo nos tintos alentejanos, mas muito curta nos brancos, que continuam a ser o parente pobre de uma riqueza por explorar. Contudo, a carta de vinhos está a precisar de reforço e sobretudo de reorganização para melhor e mais rápida leitura. E maior abrangência também.
Darei relato das lulas recheadas com arroz, bem feitas e caseiras - não como umas já congeladas que começam a invadir o mercado e que são de fugir… Veio também um esparregado que estava bem confeccionado, nem amargo demais, nem excessivamente enfarinhado, como por vezes acontece.
Provei também o arroz de pato à antiga, que estava bem confeccionado, solto e simpático, embora, se fosse à antiga, nunca levaria bacon, modernice anglófila importada nos anos 80, no máximo. A tradição portuguesa manda, aliás, redescobrir o valor do toucinho de curtimenta nacional, mas isso são discussões académicas para outra ocasião.
Numa outra ocasião já experimentara no mesmo espaço, as favas aporcalhadas e o caril de frango caseiro, ambos bem apaladados e sinceros. E umas pataniscas que naquele dia estiveram em baixa de forma. Acontece. Na generalidade, a ementa é caseira e muito bem confeccionada, mantendo níveis muito agradáveis de compromisso qualidade-preço.
Provei também o leite-creme que não deslumbrou por aí além, mas é mesmo queimado na altura com ferro em brasa como pertence. Havia doces alentejanos, com a inevitável sericaia, mas não fui em tentações.
Decoração com detalhes típicos e serviço afável.
Casas de banho limpas. Estacionamento difícil.
Muito recomendável, na minha opinião.
Resumo:
Sala/Mobiliário ***; Porções ***; Tempo de espera ***; Confecção ****; Serviço ***; WC ***; Estacionamento *; Paisagem/Ambiente ***; Grau de satisfação geral ****
Preço $$$
Tel. 213632678
Calçada da Ajuda 107/109
Lisboa
A entrada é banal, sem grande luxo, nem nenhum ar especial de restaurante de referência. A meio da Calçada da Ajuda, ao lado esquerdo de quem sobe, está este espaço simpático para cerca de 60 comensais, digo eu, não sei, mas à volta disso.
Ao chegarmos, somos prendados com pratinhos de pimentos aveludados preparados com molho de azeite e alho, mexilhões de gaspacho, orelha de porco, saladinha de polvo, enfim, mimos simpáticos e de agradável confecção. Há que recusar alguns pratos, senão a refeição acabaria por ali.
As mesas são simpáticas, as cadeiras estilo Thonet, tão de meu agrado, que envolvem e aconchegam sem oprimir, e o serviço inclui toalhas e guardanapos de pano. Bom ambiente e boa frequência devido a proximidade entre outros, do Ministério da Cultura. Aliás, é casa que a Ministra Pires frequenta, facto que já presenciei várias vezes, no que quer que isso abone de seu gosto ou demanda de sabores. Controversa na acção e no estilo, mas na mesa, ao que parece, sabe escolher …E a gastronomia também é cultura… ou não?
Na ementa do chefe Laureano é frequente encontrar a chamada comida típica portuguesa. Temos as favas com entrecosto, alheira de caça, joaquinzinhos com arroz, sopa de cação, pataniscas, caril de frango caseiro, lulas recheadas, peixe e carnes várias para grelhar. Porco preto e caça são frequentes no menu. Feijoada à brasileira também, a qual, embora não seja produto nacional, está já tão divulgada entre nós, que começa a pertencer aos nossos cardápios sem surpresa. Um certo perfume alentejano nos sabores e na decoração, decerto propagado e transmitido pela proprietária, Dª Maria Helena, uma simpática e atenta anfitriã. Alentejana do Baixo Alentejo, sente-se no coração.
Há uma boa lista de vinhos, forte sobretudo nos tintos alentejanos, mas muito curta nos brancos, que continuam a ser o parente pobre de uma riqueza por explorar. Contudo, a carta de vinhos está a precisar de reforço e sobretudo de reorganização para melhor e mais rápida leitura. E maior abrangência também.
Darei relato das lulas recheadas com arroz, bem feitas e caseiras - não como umas já congeladas que começam a invadir o mercado e que são de fugir… Veio também um esparregado que estava bem confeccionado, nem amargo demais, nem excessivamente enfarinhado, como por vezes acontece.
Provei também o arroz de pato à antiga, que estava bem confeccionado, solto e simpático, embora, se fosse à antiga, nunca levaria bacon, modernice anglófila importada nos anos 80, no máximo. A tradição portuguesa manda, aliás, redescobrir o valor do toucinho de curtimenta nacional, mas isso são discussões académicas para outra ocasião.
Numa outra ocasião já experimentara no mesmo espaço, as favas aporcalhadas e o caril de frango caseiro, ambos bem apaladados e sinceros. E umas pataniscas que naquele dia estiveram em baixa de forma. Acontece. Na generalidade, a ementa é caseira e muito bem confeccionada, mantendo níveis muito agradáveis de compromisso qualidade-preço.
Provei também o leite-creme que não deslumbrou por aí além, mas é mesmo queimado na altura com ferro em brasa como pertence. Havia doces alentejanos, com a inevitável sericaia, mas não fui em tentações.
Decoração com detalhes típicos e serviço afável.
Casas de banho limpas. Estacionamento difícil.
Muito recomendável, na minha opinião.
Resumo:
Sala/Mobiliário ***; Porções ***; Tempo de espera ***; Confecção ****; Serviço ***; WC ***; Estacionamento *; Paisagem/Ambiente ***; Grau de satisfação geral ****
Preço $$$
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