quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Restaurante a Calçada

Restaurante A Calçada
Tel. 213632678
Calçada da Ajuda 107/109
Lisboa

A entrada é banal, sem grande luxo, nem nenhum ar especial de restaurante de referência. A meio da Calçada da Ajuda, ao lado esquerdo de quem sobe, está este espaço simpático para cerca de 60 comensais, digo eu, não sei, mas à volta disso.
Ao chegarmos, somos prendados com pratinhos de pimentos aveludados preparados com molho de azeite e alho, mexilhões de gaspacho, orelha de porco, saladinha de polvo, enfim, mimos simpáticos e de agradável confecção. Há que recusar alguns pratos, senão a refeição acabaria por ali.
As mesas são simpáticas, as cadeiras estilo Thonet, tão de meu agrado, que envolvem e aconchegam sem oprimir, e o serviço inclui toalhas e guardanapos de pano. Bom ambiente e boa frequência devido a proximidade entre outros, do Ministério da Cultura. Aliás, é casa que a Ministra Pires frequenta, facto que já presenciei várias vezes, no que quer que isso abone de seu gosto ou demanda de sabores. Controversa na acção e no estilo, mas na mesa, ao que parece, sabe escolher …E a gastronomia também é cultura… ou não?
Na ementa do chefe Laureano é frequente encontrar a chamada comida típica portuguesa. Temos as favas com entrecosto, alheira de caça, joaquinzinhos com arroz, sopa de cação, pataniscas, caril de frango caseiro, lulas recheadas, peixe e carnes várias para grelhar. Porco preto e caça são frequentes no menu. Feijoada à brasileira também, a qual, embora não seja produto nacional, está já tão divulgada entre nós, que começa a pertencer aos nossos cardápios sem surpresa. Um certo perfume alentejano nos sabores e na decoração, decerto propagado e transmitido pela proprietária, Dª Maria Helena, uma simpática e atenta anfitriã. Alentejana do Baixo Alentejo, sente-se no coração.
Há uma boa lista de vinhos, forte sobretudo nos tintos alentejanos, mas muito curta nos brancos, que continuam a ser o parente pobre de uma riqueza por explorar. Contudo, a carta de vinhos está a precisar de reforço e sobretudo de reorganização para melhor e mais rápida leitura. E maior abrangência também.
Darei relato das lulas recheadas com arroz, bem feitas e caseiras - não como umas já congeladas que começam a invadir o mercado e que são de fugir… Veio também um esparregado que estava bem confeccionado, nem amargo demais, nem excessivamente enfarinhado, como por vezes acontece.
Provei também o arroz de pato à antiga, que estava bem confeccionado, solto e simpático, embora, se fosse à antiga, nunca levaria bacon, modernice anglófila importada nos anos 80, no máximo. A tradição portuguesa manda, aliás, redescobrir o valor do toucinho de curtimenta nacional, mas isso são discussões académicas para outra ocasião.
Numa outra ocasião já experimentara no mesmo espaço, as favas aporcalhadas e o caril de frango caseiro, ambos bem apaladados e sinceros. E umas pataniscas que naquele dia estiveram em baixa de forma. Acontece. Na generalidade, a ementa é caseira e muito bem confeccionada, mantendo níveis muito agradáveis de compromisso qualidade-preço.
Provei também o leite-creme que não deslumbrou por aí além, mas é mesmo queimado na altura com ferro em brasa como pertence. Havia doces alentejanos, com a inevitável sericaia, mas não fui em tentações.
Decoração com detalhes típicos e serviço afável.
Casas de banho limpas. Estacionamento difícil.
Muito recomendável, na minha opinião.

Resumo:
Sala/Mobiliário ***; Porções ***; Tempo de espera ***; Confecção ****; Serviço ***; WC ***; Estacionamento *; Paisagem/Ambiente ***; Grau de satisfação geral ****
Preço $$$

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Adega do Saloio - Chao de Meninos

Será talvez o decano de um conjunto de restaurantes de razoavel charme e óptima localização, com um ar típico e simultaneamente cosmopolita, situados em Chão de Meninos, ali para os lados de S. Pedro de Sintra.
O ambiente típico ressalta logo à entrada, com as paredes revestidas por tábuas costaneiras envernizadas e molhos de alhos e cebolas pendurados das grossas traves do tecto.
Não sabemos o que a nossa amiga ASAE vai exigir nestes casos em termos de desinfecção. Talvez proibir os alhos verdadeiros e substitui-los por alhos em plástico, seguramente menos degradáveis e cheirosos… e as tábuas retiradas e substituídas por aço inox.
Vai ser, no mínimo, curioso ver o evoluir de tão intrometidas entidades no tecido mais profundo dos costumes e ambientes nacionais…
Mas enfim. Pensemos em coisas positivas.
O cabrito da casa é normalmente óptimo e vem com as batatas coradas no forno e a cebola e o arroz de miúdos. Desta feita não o provei.
Experimentei queixada, acompanhada de um esparregado de razoável confecção, que solicitei integrasse o acompanhamento, e não me dei mal. Provei ainda a cabidela de galináceo caseiro que estava divinal.
Ah! Dizem-me maravilhas da posta mirandesa, que é certificada e bem feita, o que é raro fora de su sitio...
Especialidades na brasa de bacalhau, cabrito, peixe, espetadas à Madeira e à Bruxelas. Não faço a mínima ideia de como será esta última, nem de que peregrina fonte lhe advém o nome, talvez por predilecção de algum deputado europeu…
Passaram sobremesas gulosas, mas confesso que também não as provei. Não era dia.
Razoável carta de vinhos, bem referenciada, de que escolhi um Borba tinto VQPRD que esteve ao seu nível. Serviço de leste; simpático e eficaz.
A amesendação é correcta mas a casa merecia toalhas e guardanapos de pano. O ambiente é castiço, quase familiar, e de lareira acesa no Inverno, com uma temperatura agradável. Bom para por a garrafa na temperatura ideal.
Evitando um certo barulho de cozinha e de talheres que por vezes se ouve, também poderia conseguir-se outra tranquilidade para um espaço com inegável imaginação e dignidade.
Os pratos deviam ser aquecidos. O cliente merece. Um bocadinho de elegancia. Vá lá.
Cozinha regional, no seu melhor, sem luxos e a um preço simpático.
Estacionamento por vezes complicado, mas se quiser andar um pouco, consegue.
Restaurante não fumador. A máquina de cartões não vem a mesa.
Recomendo a visita. Há alguns anos que não o fazia, mas continua bem de saúde e de temperos.

Resumo:
Sala/Mobiliário ****; Porções ***; Tempo de espera ***; Confecção ****; Serviço ***; WC ***; Estacionamento **; Paisagem/Ambiente ***; Grau de satisfação geral ****
Preço $$$

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Restaurante o Cortador Oh Lacerda!

Restaurante Cortador Oh Lacerda!

Av. Berna 36 – A

1050 Lisboa

Há espaços de restauração que mereciam a classificação oficial de museus particulares. Pela qualidade, pelo ambiente, pelas peças expostas, pela decoração e pelo coleccionismo patente do anfitrião. Pela beleza e aconchego do espaço destinado aos comensais; pela história de tantos dias e noites e respectivas conjurações, negócios, amores e desamores que dali houveram raiz e discussão; pelo prazer de uma noite especialmente convidada; por evocação de nós mesmos, noutros tempos mais recuados; por tudo isso, o oh Lacerda! é um espaço assim, que existe em Lisboa, meio escondido numa porta discreta, frente à sede da Gulbenkian, na Av. de Berna.

Conheço o Restaurante há uma vida. Nascido do que foi outrora um talho, aproveitou com saber a sinergia desse culto, instituindo um bife à cortador de grande celebridade, putativamente em vigor desde 1943. Não posso garantir, não era vivo ainda…

Contudo posso confirmar a sua qualidade e não me custa considerá-lo como um dos históricos bifes de Lisboa, a par - para mim - com os mais conhecidos do Ribadouro, Trindade e Portugália – que se tornaram produtos de qualidade estandardizada, por vezes duvidosa e típicos de cervejaria - mas sobretudo a par com o da Casa York, ainda no activo e recomendável, segundo julgo. Outros haverá.

Falo do que sei em relação ao bife, mas garanti-vos uma isenção que, por vezes, me custa manter, quando as coisas não correm bem. Quase prefiro o silêncio quando algo desacertado acontece. Mas prometi a mim mesmo que não era por isso que deixaria de dizer a verdade. E não contem comigo nunca para desconstruir por gosto, mas também nunca para tecer loas por simpatia. Lamento, mas a verdade acima de tudo, ou não estaria a fazer critica gastronómica séria. As coisas na minha última visita, é um facto, não correram totalmente ao nível exibicional a que estava habituado no velho Lacerda.

A casa continua a ter um Senhor na sua gerência, o ambiente geral é descontraído, mas elevado e de charme, as molduras com colecção de notas de todo o mundo são impressionantes, o ar um pouco retro ajuda a enquadrar o espírito, a iluminação é sábia. O pão saloio vem de Mafra e vai à mesa em saca de pano, enfim, um espaço evoluído e sabedor da velha escola de restauração lisboeta. Uma sala não muito grande, mas nobre e simpática, de imensos pergaminhos.

Entradas a gosto, sobretudo paiola - óptima, de cura leve - e queijo de ovelha. Uma garrafeira completa, muito extensa, com divisão bem feita por regiões e donde escolhi um tinto Monte das Servas que cumpriu e constitui uma boa solução, sem entrar em preços proibitivos.

Acompanhado que estava, foram pedidas pataniscas e arroz de pato. Porém, as pataniscas - embora nos garantissem que feitas ao momento – estavam algumas de massa crua, outras passadas de mais, vieram frias e com pouco bacalhau, numa primeira surpresa negativa da noite. As pataniscas de bacalhau têm de ser uma festa desbragada de sabor e regionalismo. Uma festa portuguesa. Estas não.

O arroz de tomate que acompanhava estava de boa confecção, embora fosse seguramente aquecido do almoço, tal como o arroz de pato, saboroso e equilibrado, mas sem deslumbrar.

Nas sobremesas optei por uma tarte de maçã e passas, que cumpriu e estava muito bem confeccionada.

O serviço foi, como sempre, atentíssimo e cheio de charme, na maior parte das vezes pelo próprio anfitrião. Um cavalheiro.

A merecer sempre uma visita, como espaço de referência e restaurante emblema de Lisboa, mas a carecer, sobretudo aos jantares, de uma revisão de consciência na forma de preparo, apresentação e aquecimento das doses.

Estacionamento em parque subterrâneo pago, não muito longe, senão… impossível.

Resumo:

Sala/Mobiliário ****

Porções***

Tempo de espera ***

Confecção ***

Serviço ****

WC ***

Estacionamento **

Paisagem/Ambiente ****

Grau de satisfação geral ***

Preço $$$

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

O polvo unido jamais será vencido!

Temos uma das mais gulosas e saborosas gastronomias do Mundo.

Corri já a minha parte dele para o poder afirmar. Sou, além disso, dotado geneticamente de uma aristocracia de palato e gosto requintado, o que me permite distinguir uma vieira fresca de outra congelada, e apreciar águas e outros mais encorpados líquidos com a certeza de um golpe, o critério de um mestre e o sentido crítico de um gourmet.

Nas horas vagas, impenitente e mártir, cozinho. Entro nessas ocasiões em elevado transe laboratorial, produzindo ácidos úricos, colesteróis e outras magias alquimistas, sápidas e nocivas, de que tento ter tempero, punho e rédea, mas de que também não enjeito nem o pecado nem o sabor.

Somos todos dessa mesma matriz, mesmo os enjoados da vida. Somos portugueses.

Há sabores nacionais que são, de certo modo, uma afirmação de nossa diferença e individualidade. Do próprio património cultural.

O bacalhau e as suas mil e uma formas de cozinhar, a sardinha assada com pimentos, as conservas de atum, as caldeiradas, os presuntos, as artes de fumeiro e salmoura em geral e tantos outros hábitos alimentares, enraízam fundo no cromossoma do povo e integram uma idiossincrasia, uma gesta, uma escolha, um espaço próprio. Uma afirmação nacional.

O gomoso e magnífico leite-creme da minha avó, queimado de açúcar amarelo com o velho ferro de tostar, seria hoje considerado um perigoso produto alimentar, capaz de matar qualquer um e de encerrar um estabelecimento de prestígio como o Tavares Rico.

Paralelamente, os queijos que o pastor João Serra faz em Alcafache, escondido na sua queijeira clandestina – para chamar nomes pomposos ao tugúrio onde os cura… – são mais saborosos que os serras autorizados, fabricados em cozinhas de alumínio e inox. Porquê, não sei. Mas são.

A minha velha faca de bocas pronunciadas, de tão gasta e afiada na mó de argila, aquela mesma que levo para toda a parte quando é suposto cozinhar, e que me dá confiança no descasque e eficácia no golpe, essa, nem pensar em cozinhar com ela. Está fora da norma e não é mais que um pedaço de lixo, na óptica oficial de quem inspecciona as cozinhas desse país secreto e perigoso. Porque, por trás do sorriso farisaico do chefe de sala, lá nos recônditos e sinistros bastidores de tenebrosos restaurantes...há sempre atentados que desconhecemos - comida podre, facas duvidosas, aventais por engomar.

Daí tornarem-se urgentes medidas drásticas.

Com efeito, as mãos de vaca com grão, por exemplo, terão de acabar. Está provado que as vacas não usam protecção nas patas durante o seu pastoreio o que indicia hábitos conspurcados e de péssimo futuro. O mau hábito de defecarem para baixo permite um convívio íntimo das fezes com as citadas patas, pelo que muitas delas mostram sintomas de inflamação interdigital não combatida. O próprio grão não foi calibrado de acordo com a escala de programação, cor, emissão de CO2 e medidas autorizadas pela CEE.

Teria, de resto, de fazer-se um curso – de difícil aceitação e tolerância às autoridades europeias que superintendem a higiene do que comemos – para lhes conseguirmos explicar que neste país comemos pezinhos de coentrada, bucho recheado, dobrada com feijão branco, tripas grelhadas, enguias de ensopado, alheiras de caça, perdizes mortas de véspera, passarinhos fritos, patos e galos caseiros de saúde nunca controlada, mioleiras, ovos não carimbados postos por galinhas deseducadas e pica no chão, couves do quintal, batatas e feijões igualmente sem inspecção botânico/sanitária, azeitonas apanhadas directamente das oliveiras e não compradas em frascos, chouriços e morcelas de sangue defumados no nosso fumeiro de azinho, presuntos provenientes de porcos em vida provavelmente nauseabundos, vinho pisado com os pés, queijos de origem em leite proveniente de tetas duvidosas e, por vezes, coagulados com um cardo bravio que há nos montes, sandes de courato vendidas em carripanas, sem o mínimo de condições, à beira da estrada, com os carros a passar ao lado, em dias de futebol!

E explicar-lhes que, contudo, sobrevivemos. Morreriam de susto.

Mas há mais.

Juntemos os bolos e barquilhos da caixinha mágica da praia, os gelados que ao fim de uma manhã de areal já estão mais desfeitos que a neve em Agosto, castanhas assadas em carvão no meio dos cavalos da Feira de S Martinho, a neve doce tão pedida pelos miúdos, aquela que é enrolada no pau em feiras e romarias pelo país fora, e as farturas e churros feitos na frente de toda a gente, sem higiene nem preparos, cheios de óleo e canela duvidosa, embrulhados em papel pardo, rasgado sem norma nem preceito.

Juntem-se os saborosos e nojentos caracóis, apanhados nos mais inverosímeis sítios, inclusivamente cemitérios; os percebes; as lapas, cadelinhas, berbigões, ouriços e mexilhões roubados na maré baixa, em areias e rochas, repletas de um fétido cheiro a algas e a mar.

E, por fim, os próprios sargos, robalos e restantes peixes, apanhados a comer a babugem por inconscientes pescadores à linha, que arriscam a vida em erectas falésias, e que não cumprem, obviamente, as mínimas normas de segurança alimentar, pois alimentam-se de restos e despejos naturais e marítimos não controlados, de proveniência tão sórdida que até me escuso a comentar.

Da carne, nem sequer falo. Nenhum nutricionista a recomenda, nem há matadouros onde o sacrifício das rezes seja precedido dos actos religiosos recomendáveis e piedosos. O pecado da carne estará para sempre banido do nosso viver. Só argentina e congelada. Ponto. Parágrafo.

Feche-se o país e comamos todos… não sei…talvez pão. Mas do embalado, de origem escandinava, em tostas integrais, vacinados contra a gripe e tudo.

O pão do Alentejo será proibido em breve. Só em forno eléctrico.

O forno a lenha tornar-se-á um objecto de museu.

Decorrente disso, cabritos de todos os montados: – respirem de liberdade!

Pargos no forno: - a vossa hora é de vitória!

E também vós, couves e alfaces da horta própria, espigai à vontade – não podeis ser consumidas. Estais finalmente livres!

Adeus sabores de Portugal. Europa oblige.

Tias velhas, avós, mães, enfim, todas vós, hábeis, exímias cozinheiras, – acabou tudo! Agora fazei costura.

E nós próprios cozinheiros e amantes do viver, Epicuros serôdios e insensíveis. Devíamos ter era vergonha.

O país regressa dentro de momentos, num outro século qualquer.

Quem quiser associar-se, junte a sua à nossa voz.

Preparemos a passagem à clandestinidade

Eu por mim, de resto – nisto e naquilo – também já sou clandestino há tanto tempo que nem estranho...

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Restaurante Típico O Alpendre - Arraiolos

Bairro Serpa Pinto - Arraiolos

Entra-se em Arraiolos e sobe-se o que parece ser a ultima rua, em direcção ao topo da vila. À esquerda, ao alto, vai encontrar o Alpendre, um Restaurante porto de abrigo que recomendo.

Tem a dignidade e a decoração típicas alentejanas e a amizade calorosa de um povo amigo e são que sabe receber.
Carta de vinhos generosa onde avultam os alentejanos brancos e tintos para aquecer a alma. Um dos poucos sítios onde assisti a um corte de gargalo, feito com mestria.

A partir das entradas que o vão começar a encher, perca-se depois com a Sopa Cação, a Vitela do Montado, as Migas de Espargos,Tomate e Bacalhau, a carne de Porco Preto.

Enfim, um mar de erros dietéticos que nunca sabemos se o são ou não, pois afinal o povo alentejano interior acaba por durar nem mais nem menos que o algarvio litoral que só coma peixe. Ou o não fosse a dietética uma ciência redonda, de conhecimentos insuficientes, indicações equivocas, redundâncias e acusações por provar, modas refundidas e fundamentalismos doentios.

Quantas vezes a sardinha já foi boa, e depois má, e depois outra vez boa à luz dos dietistas? E os azeites? E a confecção com banhas e toucinhos? E a carne de porco? E o excesso de pão?

Quando me dizem mal da culinária do pão e das ervas de cheiro; da carne de porco gorda e do esturricado; das sopas e do azeite; dos produtos de fumeiro; do uso diário do vinho à refeição e muitas vezes fora dela; da confecção usando toucinhos e banhas; dos doces conventuais gordos e cheios de ovos, eu dou por mim a pensar num casal que conheci lá pelos lados de Alter, que por coincidências da vida se tornaram meus sogros, e que nunca conheceram outra alimentação. Vidas saudáveis e plenas. Um bebia bem, morreu cedo - com 91 anos. A outra figurinha, sua mulher, continua com 95 lúcida e atenta, uma cabeça de invejar e uma memória e movimentação com que eu não sou capaz de competir.

Porco? Sempre. Pão? Sempre. Água do poço. Vinho da lavra. Paios e enchidos caseiros. Azeitona curtida do beirado.

E mais. Banha e toucinho como gorduras de confecção. Gado caseiro, não vacinado mas de confiança. Galinhas pica no chão, borregos, galos, porcos, coelhos bravos.

Não sei como. Esta gente assim acaba com os nutricionistas. Assim não vale.

Por isso mesmo, se for ao Alpendre, coma os paios e os queijos de entrada, vicie-se nas migas de espargos, e trinque à vontade o porco preto. Pode estar a assinar a sua sentença de morte segundo alguns dietistas, mas olhe que a prática vivida do povo alentejano diz que não...

À sobremesa, se houver, escolha o morgado, ou o Don Manuel, desculpem lá, esqueci o nome por não ter apontado na altura. Um de cobertura branca. É de cair de prazer, tipo pão de rala. Um sonho.

Estacionamento por vezes problemático - rua estreita. Ambiente típico e simpático. 70 mesas com guardanapos de pano, bem apresentadas. Encerramento à 2ª feira

Cozinha Tradicional Alentejana no seu melhor. Não é preciso ir ao Fialho pagar o dobro. Fique por aqui. Vá por mim. Merece uma visita.


Resumo:

Sala ****

Mobiliário ***

Porções***

Tempo de espera **

Confecção ****

Serviço ****

WC ***

Estacionamento **

Paisagem/Ambiente ***

Grau de satisfação geral ****

Preço $$$

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

classificações

Tabela de classificação

* (francamente mau)

** (pode melhorar)

*** (satisfaz)

**** (bom)

*****(muito bom)

Preço

Muito barato ($)

barato ($$)

médio ($$$)

caro ($$$$)

bastante caro ($$$$$)

Restaurante Casa das Enguias - Boquilobo - Ribatejo

O culto da enguia...

Algumas terras se gabam de deter o exclusivo da culinária da enguia.
São assim famosas as enguias do Infantado, da foz do Arelho, das Lagoas de Óbidos, Stº André e Melides, da Murtosa, Porto Alto, etc
A forma de preparar tal gordo e saboroso peixe varia de terra para terra, mas hoje abordarei o Boquilobo, nome estranhíssimo, correspondendo a uma povoação mínima - de umas 30 casas no máximo. Um estranho mas invulgar sucesso na comercialização de tal anguiliforme.
É a terra natal dessa referência da democracia e da luta pela liberdade que foi Humberto Delgado. Ainda hoje, fruto desse ícone local, muitos Humbertos houveram dele nome pela região. Freguesia de Brogueira, concelho de Torres Novas. Fixe.
O Manuel Cepo, aliás Casa das enguias de seu recente nome, é uma sala grande, espaçosa e moderna, fruto de recente mudança de um velho espaço onde tudo começou. Mesas e cadeiras confiáveis, de madeira, postas de forma simples mas legítima, simpatia no servir com afabilidade e eficiência. Café na entrada para convívio local, nao separado do restaurante, funcionando ambos em espaço aberto . Guardanapos e toalhas de papel. Aos fins de semana algum ambiente ruidoso é previsível. As casas de banho são limpissimas e espaçosas.
Lista de vinhos não muito extensa, digamos talvez razoável, mas com relevo para os vinhos Ribatejanos. Dentre estes, o Quinta de S. João Baptista, compromisso de preço e gosto que não envergonha. Curiosamente, é um vinho criado ali mesmo ao lado, em vinhas extensas de vários hectares, entre Riachos e a aldeia onde fica o restaurante.
Mas permitam-me derivar um pouco.
Várias alternativas existem, com efeito, dentro da aldeia, - onde ocorre um festival anual da enguia, normalmente no fim do Verão - e há, no mínimo, 3 hipóteses para o consumo desse petisco desconhecido que é a enguia grelhada. Qualquer um deles é de visitar.

O Retiro da Fataça, é famoso pelo tratamento do peixe de que toma o nome. A fataça é um peixe branco de tamanho médio, que vem limpo e gordo do Tejo no Almourol (ou da terra de Saramago, ali tão perto, a Azinhaga) enquanto em Lisboa - onde se chama taínha - tem sabor a óleo, devido à poluição do rio nas docas.... Mas este restaurante possui também enguia, geralmente eiró ou iró, um pouco mais grada, para grelhar; ou mais pequena, nesse caso indicada para fritar.
O outro, mesmo em frente do Manuel e primo do mesmo, é o Zé Cepo, com uma miga divinal que - mais que por acompanhamento - é quase uma razão de visita obrigatória em si mesma. Quanto a mim, é a versão local mais próxima da miga original do velho "tubarão do Tejo", seu criador e do Toino Matos pescador, seu herdeiro, que o chegou a confeccionar para -espanto dos espantos!...- a própria Rainha de Inglaterra. Uma delícia feita de refogado lento de ervas várias, mistura de pães esfarelada à mão, nunca à máquina, algum bacalhau desfeito em algodão e muita mão, dada pelo saber.

Mas voltemos ao Manel.

A oferta, embora variada, vive à base da grelha e do ensopado de enguia, feito com iró média a grada, bastante hortelã, como pertence, pão e tempero de bom equilíbrio. Para quem pensasse que só os ensopados do Porto Alto é que satisfazem, ficamos com uma alternativa muito credível, em muitos aspectos até, superior.
De peixe, há também alternativas, que vão das lulas e chocos, à fataça e ao bacalhau. Tudo na brasa, no ponto e com arte. O dono da casa tem uma vida de prática e nao deixa esturrar as coisas...
Para os iniciados nas artes da culinária da enguia, dado o preconceito pela fusiforme criatura, aconselha-se talvez a enguia frita acompanhada de miga, que se comporta como iniciação adequada e geralmente melhor tolerada. Deve ser acompanhada de molho vinaigrette para desenjoar e salada bem guarnecida. Coma à mão, desiniba-se, não está no Gambrinus. Se não conseguir superar o preconceito... é pena, mas tente as febras da casa, enormes gordas e saborosas como poucas.
Passe pelas sobremesas, onde se aconselha, se houver, o fidalgo, o bolo de bolacha, o melão - na sua época - o pudim de café ou o pudim de ovos da casa, gordo pesado e com a consistência dos mestres. No fim tente o bagaço caseiro. É um espanto e um segredo bem guardado de digestão sem problemas.
Estacionamento razoável no largo fronteiro e no parque próprio do restaurante, um pouco distante, mas muito útil em dias de maior aperto. Visita altamente recomendável e compensadora.
Vá ao Boquilobo e espreite a casa museu Humberto Delgado, o homem que ameaçou demitir Salazar.
Em terra de homens de coragem come-se bem, garanto.



Resumo:

Sala ***

Mobiliário ***

Porções****

Tempo de espera ***

Confecção ****

Serviço ***

WC ****

Estacionamento ****

Paisagem/Ambiente **

Grau de satisfação geral ****

Preço $$